Retrato em Branco e Preto

16.3.21

Do pesar


O silêncio dos segundos que antecedem a chegada da chuva são os mais bonitos. De repente, os telhados vão anunciando os pingos fortes, as folhas das árvores reverberam o som da água em movimento, um sopro gelado corre pelas ruas e invade as janelas e portas abertas. Pingos, telhas, folhas, brechas e poças se juntam para executar uma das mais belas sinfonias da natureza. A água corre, buscando um rumo já conhecido, apesar do asfalto, apesar do entulho, apesar do lixo.



Assim como a chuva, forte ou fraca, nós também seguimos o nosso caminho. Mesmo após um ano tão atribulado em todos os sentidos, mesmo com a falta imensa de esperança e com todas as “pedras” no caminho, seguimos. Estamos todos muito exaustos e tristes, e temos mesmo muitos motivos para estar, mas precisamos seguir de alguma forma por nós e pelos 280 mil que não estão mais aqui.



22.10.20

Das sementes


Aqui em casa nós crescemos ouvindo minha mãe dizer que um dia iria sair caminhando e plantando árvores, de preferência frutíferas, para ajudar a amenizar a fome que existe nas áreas mais carentes da sua cidade natal, que fica no sertão central do Ceará. Isso foi muito antes da circulação daquele texto que falava sobre a prefeitura de uma cidade na Tailândia incentivar os seus moradores a plantar as sementes das frutas que eram consumidas. Por conta dessa ideia dela, desde cedo a gente aprendeu a separar e a plantar as sementes aqui mesmo na cidade, com o objetivo de levar as mudas já no ponto de transplante para o sertão. 


Por conta da idade já um pouco avançada e do perigo que andar na estrada oferece, ela arrumou uma maneira alternativa de fazer esse projeto acontecer. Na frente da casa que era do meu avô existe um terreno enorme que faz parte de uma fazenda de um senhor muito importante da região. Um dia, a minha mãe foi lá pedir permissão ao dono da fazenda para plantar algumas frutíferas no terreno e explicou que o objetivo era apenas ajudar a natureza e a comunidade do entorno de alguma forma. Ele ficou de pensar e dias depois mandou um funcionário ir deixar a resposta. 


Desde o dia que ela recebeu a autorização, faz parte da bagagem levar uma mudinha sempre que alguém viaja para o interior. Meu pai também segue empenhado no projeto e, além do que existe no quintal da nossa casa, já tem abacate, mamão, siriguela, cajú, jambo, manga, côco e acerola crescendo no sertão. Além das frutas, temos também algumas flores como ipê, flamboyant e jasmim, e sempre que tem mamão madurinho, dorme no pé e amanhece no prato ou na barriga de alguém.


Agora a pouco, recebi uma foto que mostrava o meu pai de longe aguando as plantas no terreno nessa luz bonita do fim de tarde. Só quem conhece sabe a beleza e o encanto que esse lugar tem. Quem já foi ao nosso sertão central sabe que a paisagem nessa época do ano é um contraste de céu azul com terra áspera, seca e muito quente. Me enche de orgulho saber que meus pais se preocupam  e estão trabalhando de alguma forma para deixar boas sementes crescendo por aí alimentando quem quer que seja, bicho ou gente, de fruta, de esperança e de natureza.


10.10.20

Dos vídeos

Nos últimos dias tenho tido muita dificuldade para dormir, para acordar, para trabalhar, para estudar, para escrever e para viver, de um modo mais geral mesmo. Tenho visto vários vídeos ensinando o que fazer para ter uma rotina equilibrada, um dia mais produtivo, uma mente mais tranquila, um passo mais leve, mas no final das contas é tanta informação de uma vez só que o efeito acaba sendo o contrário. Passam as horas e a bagunça permanece do mesmo jeito que antes aqui dentro. Mas se tem uma coisa que eu sou é teimosa o suficiente para tentar insistindo, buscando de um jeito ou de outro esse tal de equilíbrio. 

7.10.20

Do marcapasso

 

Há alguns dias ela reclamava de uma coisa ruim no peito que não era exatamente um cansaço e nem dor. Era só uma coisa ruim, uma gastura, como ela mesma definia. Em uma visita à emergência no domingo à noite, suspeitaram de um efeito adverso de um remédio que ela estava tomando. Fez eletro, tomou soro, voltou para casa e logo depois o aparelho de pressão voltou a acusar uma frequência cardíaca de 39 batimentos por minuto. O coração de 85 anos da minha vó dava um sinal claro de alerta e mais uma vez eu me via diante de um dos meus maiores medos. 


No dia seguinte, fomos ao Hospital do Coração e recebemos com apreensão a notícia de que a internação deveria ser imediata. Se em condições normais uma situação dessas já nos deixaria muito preocupados, imagina só no meio de uma pandemia? Assim foi. De acordo com as normas de segurança, não poderia ocorrer mudança de acompanhante e nem visitas. Numa das ligações de rotina para saber como ela estava, minha tia contou às gargalhadas que ela estava revoltada porque não podia receber visitas, perguntando se os funcionários daquele hospital “não tinham mãe” para fazer aquilo com ela. 


Minha vó é a pessoa mais esperta que existe nesse mundo, uma artesã de mão cheia que gosta de passar as tardes envolta em suas linhas de bordado e crochê, e que adora resolver os caça-palavras mais difíceis da revista coquetel. Ela é pequenininha, mas de uma força impressionante e de gênio muito forte, como toda sertaneja que precisou vencer muitos desafios na vida. Depois de uma semana internada e de duas cirurgias, hoje finalmente ela retorna para casa e eu estou aqui agradecendo a Deus e ao universo pela oportunidade de poder receber logo mais o abraço apertado que só ela me dá.

31.8.20

Dos mergulhos

Agosto de ventanias e turbulências internas se despede enquanto segue deixando tudo fora de lugar. A sensação que tenho é a mesma de estar em mar aberto, com o fôlego preso em um mergulho infinito enquanto procuro desesperadamente emergir das águas mais profundas. Bato as pernas, movimento os braços, seguro a respiração, vejo a claridade se aproximando cada vez mais, mas a dificuldade é tanta que a sensação que tenho é a de que não saio do lugar. É óbvio que sinto medo, mas sei que só preciso aguentar mais um pouco para chegar à  superfície clara e calma, só preciso aguentar mais um pouquinho para respirar.

29.8.20

Dos anos

Completei mais um ano de vida e foi uma quinta-feira especialmente azul e quente, com cheiro de bolo de chocolate recém saído do forno pela casa. Foi bonito ver o carinho chegando através da música e das mensagens que recebi pelas redes e fiquei realmente muito feliz por estarmos todos juntos, vivos e com saúde. Sem dúvida nenhuma isso é o que mais importa nesse momento, mas espero que no ano que vem a gente possa sair por aí para comemorar a vida, com muita alegria, como deve ser. :)

Para esse ano novo pessoal tenho alguns sonhos e algumas metas para realizar, uma vontade absurda de crescer, de me reinventar, e de aprender sempre um pouco mais todos os dias. Que venham os novos dias e que a primavera floresça cada vez mais os meus caminhos, que eu continue encontrando alegria nas pequenas coisas e comemorando os nossos pequenos grandes momentos, e que a gente continue escrevendo muitas histórias bonitas para contar.


18.8.20

Dos ventos

O vento corre ligeiro pelo corredor da casa, atravessando todos os cômodos escuros e vazios, cortando o silêncio do dia. Agosto chega trazendo a temporada de ventos fortes, desses de fazer redemoinho de folhas secas no meio da rua e de trazer panfletos para o meio da sala. Venta muito, um vento tão frio de manhã cedo que a gente até lembra do inverno e logo agradece pelo sol e calor de cada dia dessa cidade. 


Fazia um bom tempo que eu não ficava sozinha, em silêncio, caminhando pelos cômodos vazios com a minha xícara de café e com os meus pensamentos, observando o que precisa ser mudado, lembrando os detalhes do que era, olhando as paredes sem cor, as panelas empilhadas na cozinha e os móveis empoeirados. Enquanto a vida corre na velocidade do vento, eu sigo os dias sem conseguir sair do lugar.


6.8.20

Das fotomemórias

Nesses dias todos iguais, tenho recebido diariamente uma fotomemória das ruas, dos parques, dos jardins e das pessoas maravilhosas que encontramos no nosso último verão em Berlim. Nós já estávamos de malas prontas para voltar para o Brasil, então, aproveitamos o nosso último verão como nunca, caminhando e vivendo a cidade no seus dias mais quentes e azuis. Fomos muito felizes, foram alguns dos dias mais lindos que eu já vivi.


Todos os dias eu tenho tido esse reencontro com essas memórias muito minhas, que às vezes pode ser só uma fachada florida que eu acompanhei o desabrochar; uma rua iluminada que fazia parte do meu percurso para o trabalho ou o sorriso de alguém que ainda está por lá e de quem eu gosto muito. Pode ser também o horizonte que eu via em um determinado momento de tristeza ou de alegria, mas que era um horizonte meu e que me marcou naquele momento. 


O tempo é mesmo muito engraçado e os anos acabam fazendo com que algumas memórias fiquem presas em labirintos que aparecem pelo caminho. Por mais que a gente ache que nunca vai esquecer, a gente esquece, não adianta negar. Mas é incrível como basta uma faísca para o fogo surgir, basta uma foto para tudo voltar à mente como se você estivesse lá novamente e pudesse sentir os cheiros, os sabores e ouvir os sons de uma lembrança. 


Pode não fazer o menor sentido para quem vê, mas por trás de cada foto exposta ali existe uma história. Particularmente, não tenho o hábito de ficar revisitando os meus arquivos por aqui e revirando as minhas velhas histórias, mas tem sido uma experiência legal receber essas memórias surpresa que eu guardo com muito carinho em uma caixinha da internet e olhar novamente esses nossos dias com outros olhos, experiências, expectativas e saudade. 


29.7.20

Do cansaço

A gente vai envelhecendo e vai perdendo tudo: os dentes, os cabelos, o viço na pele e a paciência. Deus me livre de me tornar aquela velhinha carrancuda e reclamona, que detesta barulho de criança gritando na rua e que fura bola embarcada, mas tá difícil. Deve ser o cansaço.

25.7.20

Do dia fora do tempo

Achei que não haveria registro melhor e mais bonito para deixar aqui nesse “Dia fora do Tempo” que essa poesia maravilhosa do Siba, que ouvi logo pela manhã. Coincidentemente, ou não, foi a primeira música que tocou aleatoriamente quando apertei o play nos meus álbuns favoritos. 


A vida não dá certeza

pois tudo se movimenta

cada dia representa

a chance de uma surpresa

e até mesmo a natureza

se altera a cada segundo

 

o tempo é ventre fecundo

aonde tudo é gerado

se o tempo fosse parado

nada existia no mundo

 

Ninguém sabe o que será

do tempo futuramente

mas o tempo do presente

tudo tem e tudo dá

que o que tem no tempo está

em um caderno anotado

 

Tudo que o tempo tem dado

de tempo em tempo se soma

que o tempo com tempo toma

tudo o que deu no passado

 

O tempo não tem feição

não tem cheiro e não tem cor

não tem som, não tem sabor

voa sem ser avião

rouba mas não é ladrão

carrega tudo o que cria

 

Tempo é vento que assovia

que passa e faz pirueta

e o vivente é borboleta

levada na ventania

 

Vejo o tempo que passou

montando o tempo que passa

e já respirando a fumaça

do tempo que não chegou

o tempo me atropelou

no meio de uma avenida

 

Estou na porta de saída

vendo o portão de chegada

depois de muita rodada

na bulandeira da vida”

 

[Siba e a Fluoresta]

Álbum: Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar

Música: Tempo II (clique para ouvir)