Retrato em Branco e Preto

6.12.16

Dos nadas

Eu tinha planejado fazer algumas coisas no final de semana, mas depois de ter tido também alguns dias tão difíceis, confesso aqui que escolhi simplesmente fazer nada. Eis uma pequena lista de alguns “nada” que foram feitos sem nenhum peso na consciência:

·         Escolhi dormir muito, até tarde, no sábado e no domingo;
·         Por conta da escolha anterior, escolhi não ir à praia cedinho;
·         Escolhi tomar café na hora do almoço;
·         Escolhi não sair de casa para resolver pendências no sábado à tarde, como havia planejado;
·         Escolhi não fazer o trabalho que o professor havia pedido para segunda feira;
·         Escolhi não estudar as duas mil horas prometidas para mim mesma em momentos de desespero;
·         Escolhi não iniciar a mega faxina de dezembro, não agora;
·         Escolhi ficar na cama, sem culpa nenhuma, aproveitando o meu tempo de ócio;
·         Escolhi assistir filmes bobos;
·         Escolhi pipoca e sorvete, não tem escolha mais feliz;

Escolhi tirar um pouquinho o peso da cobrança dos ombros e, vejam só, a segunda feira foi um dia normal! Os prazos de entrega dos nossos projetos foram reajustados, os telefonemas, as cobranças.. fluiu tudo normal! Para fechar o dia, ainda fiz o trabalho para a faculdade, mas o professor teve um imprevisto e não pode dar aula! 

Enfim, esse é um post infantil para lembrar a mim mesma que a gente corre tanto, se cobra e se desgasta tanto por coisas tão pequenas, que acaba esquecendo o essencial, como dar um abraço na pessoa que mais ama antes de sair de casa. A vida é um sopro, minha gente. Um sopro e nada mais.

28.11.16

Dos hábitos

Há uns três anos eu reclamava que não conseguia acordar cedo e existir ao mesmo tempo. Simplesmente não dava, apesar dos meus esforços durante todo o tempo em que precisei funcionar a partir das sete ou oito da manhã. Até que um dia me deram o fatídico aviso: deixa só chegar “os trinta” e você verá como isso vai mudar. Até hoje não sei se foi um milagre ou se foi uma praga que me jogaram quando me assumi notívaga e coruja perante essa sociedade fitness e tanquinho das trevas, que corre às cinco da manhã como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Não é. Corta para 2016, esse ano louco de reviravoltas absurdas. O ano em que comecei a acordar bem antes das seis da manhã, naturalmente, sem despertador, mesmo sem compromisso marcado, mesmo sendo domingo ou feriado. Coincidência, praga ou não, é um mistério. 

23.11.16

Dos pontos de vista

Continuo com essa mania de andar por aí admirando as fachadas e calçadas floridas que me encontram pelo caminho. Divago olhando os letreiros, as latinhas que viram vasos, as folhagens diversificadas, o cuidado de um ou outro com o que existe de verde na nossa cidade. É tudo muito sutil e nem todo mundo tem tempo, ou pode estar atento às belezas que estão livres por aí.

Outro dia, a vizinha que mora em frente a nossa casa bradava aos ventos que preferiria morrer queimada pelo sol da tarde a ter que varrer todos os dias algumas poucas folhas secas que cobrem o chão. Fiquei pensando nisso, nessa sentença de morte, nesse grito tão forte. Tanta  raiva, tando ódio que a faz preferir a morte a ter que cuidar de algo que a protege do sol intenso de todas as tardes.

Enquanto isso, a vizinha da casa ao lado acorda todos os dias bem cedinho. Pega a sua vassoura, varre a rua de uma ponta a outra, às vezes de pés descalços, sempre cantando. Ela cuida das árvores que ficam “do lado do sol” e sua calçada é abrigo das conversas do fim de tarde. No galho da árvore que fica em frente a sua casa tem um balanço colorido onde o seu neto brinca e contagia quem passa perto de felicidade.

14.11.16

Dos eixos

Entre um gole e outro de café, nos demos conta de que já vivemos aqui um ano após o nosso retorno. Tantas coisas aconteceram! A rotina maluca que abraçamos, os projetos que saíram do papel, as escolhas e as renúncias de cada dia, as oportunidades que surgiram entre um tombo e outro só me levam a crer que a vida é mesmo uma história muito maluca. Ano passado, nesse mesmo mês, nem em sonho eu imaginaria que minha vida, de certa forma, entraria nos eixos, se é que se pode dizer a vida tem algo assim. E no meio de tanta correria só agora me dei conta de que estou hoje riscando os itens de uma lista de desejos que escrevi tempos atrás.

28.8.16

Do agora

Há exatamente um ano, com um sorriso grande no rosto, embarcávamos naquele vôo de chuvas e de incertezas. Estaríamos dali a algumas nuvens e horas depois de volta para a nossa primeira casa. Quando eu olhava pela janelinha do avião, de coração apertado de medo e de alegria, eu nem imaginava tudo que eu ainda iria vivenciar nos 365 dias que viriam.

Foram mudanças - de cidade e de estado, provações, aprovações e, dentro do caos inexplicável, do caminho mais imperfeito e imprevisível possível, a vida seguiu. Hoje um ano novo pessoal se inicia, com a grande felicidade de poder sentir e saber que nesse momento estou exatamente onde deveria estar. Logo eu, que adoro um casulo, abri as asas para receber visitas e abraços. Foi um dia 27 de agosto de feliz 31 anos para mim.

5.7.16

Das colheitas

Definitivamente, migrei para um universo paralelo sem deixar recado para ninguém. Sigo sem dias, sem datas, sem parâmetros, apesar do reloginho do notebook me mostrar exatamente o meu tempo espaço de agora. Ontem me assustei ao me dar conta que estamos em Julho. E já é dia quatro, disse ele, rindo da minha descoberta absurda.

***

Voltei a colar lembretes de papel pela mesa para não esquecer as datas, já que o aplicativo que deveria me alertar sobre os prazos passa, de uma forma muito absurda e muito mágica, batido pelos meus olhos. Simplesmente não vejo, ou deixo para depois e esqueço. É maluca essa luta que a gente enfrenta contra o próprio tempo.

***

Que bom que a vida também segue e, no tempo certo, as coisas também acontecem. Colhi mais um fruto do regresso ontem a tarde e vou voltar a estudar. É só mais um passo firme em direção a uma porta bonita que se abriu, sem muitas garantias ou promessas, mas eu fiquei tão contente! Já temos mais motivos para comemorar. =D

8.6.16

Das mudas

É preciso mesmo muita paciência pra lidar com a teimosia alheia, muita. Doses cavalares de paciência, na veia se possível. Infelizmente, paciência é algo que me falta desde o berço e agora é que eu resolvi aprender a cultivar, mas como qualquer iniciante em uma atividade delicada, mato minhas mudas diariamente. Todo dia é dia de plantar novas mudas de paciência por aqui. Taí uma colheita que eu tenho total consciência de que vai demorar a chegar.

27.5.16

Das redescobertas

A missão mais complicada que recebi nos últimos dias foi a de tentar me reencontrar. Cada dia, uma nova batalha. Cada passo, a busca de um porquê. Na bagagem para essa viagem interior tem música antiga, uns livrinhos de esperança e paz, o sabor do chocolate, listas espalhadas em post it colorido e alguns desejos infantis. Tem sido uma verdadeira luta entre a antiga e a atual, a sempre-fui-assim eu e a eu que-quero-ser. Uma confusão danada, um verdadeiro enlinhado como se diz por aqui. A cada pequeno nó desatado, a cada redescoberta de mim, uma grande vitória celebrada de pés descalços. O sufoco constante na garganta já sumiu e foi fácil entender o motivo: voltei a escrever.



25.5.16

Do céu

Não sei como anda o céu de vocês, mas por aqui o espetáculo de cada dia tem sido cada vez mais incrível e hipnotizador. Pela manhã, quando não chegam as nuvens acinzentadas de chuva - mais que necessária, diga-se de passagem - o amanhecer se desdobra em cores e desenhos em nuvens sem fim.

O dia segue quente, sol a pino, céu azul, quase nenhuma nuvem no céu. Nossa sorte é essa brisa que chega para acalentar as árvores e apaziguar um pouco do calor desse nosso verão eterno. Seguem as horas e com elas as copas dançantes ganham cores mais ou menos verdes, a depender do caminhar imponente do astro rei.

Perto das quatro, o céu já se prepara para receber a aquarela mais bonita do dia. Aos poucos, o horizonte ganha o contorno das cores alaranjadas, vermelhas, lilázes e azuis. Não sei explicar muito bem, aliás, nem se pode explicar uma beleza desse tamanho que se transforma em tão poucos minutos. Basta um piscar de olhos e tudo muda!

A noite chega e também não deixa nada a desejar. Impressão minha ou o céu anda cada dia mais estrelado? A lua banha as ruas e as calçadas, as estrelas mais parecem brilhantes, sem contar com a presença de alguns planetas que se fazem visíveis a partir de umas horas. Se eu pudesse, ficava a noite inteira olhando pro céu.

Tenho em mim esse pó que vem da terra e um tanto mais de poeira cósmica que nem sei. Sempre que penso na minha vida, nos meus medos, nas minhas escolhas e nos meus planos, olho para o alto e vejo o quanto sou pequena. Tento me acalmar ao encarar o caos e o silêncio, não demora muito e eu só posso agradecer.

8.5.16

Dos sonhos lúcidos

Foi engraçado olhar pela janela e admirar aquele pôr do sol outra vez.“Pensei que nunca mais iria reviver esse momento” disse, muito lúcida no sonho, enquanto olhava o infinito céu de fogo se transformando na minha frente. Eu olhava e reconhecia cada pedacinho daquele horizonte único que eu tanto admirei.

Olhei para a mesa da sala e vi dois livros para crianças com o título em português. Achei tão engraçado e me perguntei como as crianças fariam para entender o que havia escrito ali. Lembrei que a ilustração é também uma linguagem universal enquanto admirava algumas páginas e sorri. Enquanto caminhava pela sala, pensei o quanto foi bom estar ali outra vez e acordei.


4.5.16

Dos últimos dias

Das certezas - escrever o livro.

Das dúvidas - o próximo grande passo.

Dos orgulhos - o de ter coragem de mandar o medo pra casa do caralho quando ele insiste em querer ser maior que eu.

1.5.16

Do depois

Tem sido assim a cada despedida, é como ganhar uma passagem gratuita para embarcar no navio fantasma dos questionamentos. Pra quê tanta loucura, tanta correria, tanto depois se o amanhã pode nem chegar para nós? Olho para o lado e vejo meus pais, minha família, minha vó e agradeço por mais um dia por aqui. Só agradeço.

5.4.16

Das questões

A mesa onde passo horas e horas do meu dia atualmente fica bem próxima à rua. O que existe de verde e de claridade, existe em dobro de barulho. No início era difícil buscar concentração com tantos estímulos visuais e sonoros, mas agora, já adaptada à rotina dos passantes, encontro nas brechas do cotidiano alheio memórias incríveis que me levam longe nos pensamentos.

Existe uma escola no quarteirão seguinte ao onde fica a a minha casa e isso significa que, em horários bem específicos do dia, grupos de estudantes alegres e barulhentos passam pulando, cantando e brincando pela mesma calçada onde um dia eu tanto brinquei.

Às 6h45 e às 11h o público miudinho das creches desfilam por aqui, sempre com muito choro, muita birra e muitos porquês. Quando eles percebem os chachorros tomando banho de sol na garagem então, aí é uma festa de gritos e latidos. Nessa hora a concentração vai embora e o melhor mesmo é ir tomar café.

Vez ou outra consigo acompanhar os diálogos que acontecem em frente ao portão e me pergunto o que eu faria na situação em que os adultos responsáveis por essas crianças se encontram quando se deparam com as perguntas absurdas que só a sinceridade infantil permite fazer.

Outro dia uma menina reclamava para a mãe que os amigas riram dela por conta do celular “de pobre”. Fiquei tão chateada com isso, lembrei também que às vezes as crianças conseguem ferir sentimentos como ninguém mais. Uma outra respondia com revolta a acusação impiedosa das vozes que gritavam inssistentemente um “tá namoran-dô” tão bem ensaiado que não dava para não rir da situação.. Não sei, gente. Não tenho psicológico para criança não.

À tarde é a vez dos mais crescidos e dos adolescentes passarem por aqui. Esse momento exige um outra pausa para um café, porque não dou conta da energia que esse povo tem em plena uma hora da tarde nesse sol de cozinhar os miolos. Eles cantam, brigam, falam bordões da internet, é uma loucura! Mas, todas as tardes é impossível não lembrar da festa que eu fazia com minhas amigas no caminho para o colégio também. Nessa hora, sinto saudades.

Às 17h começam a voltar para casa, além dos estudantes, as pessoas que deixam os seus postos de trabalho. Quase sempre tem um pôr do sol incrível no céu, idosos sentados na calçada, um vizinho ouvindo música alta, pessoas cantarolando trechichos desencontrados, senhores assoviando verdadeiras sinfonias, passarinhos em revoada, tapioca quentinha sendo vendida, cachorros latindo.. É um momento tão caótico e tão mágico que não tem como não achar esse cotidiano um absurdo de bonito.



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ps: A inspiração para esse post foi um tweet da Juliana, do Fina Flor, que falava sobre mais uma das perguntinhas engraçadas que uma professora pode encontrar pela frente na sala de aula.. Se fosse eu nessas situações delicadas ou embaraçosas, mesmo pensando bastante a respeito, nunca saberia o que responder! :P 

3.4.16

Dos ensaios

Foram muitas as tentativas, muitos os ensaios para voltar aqui. As voltas, elas foram tantas quanto a de um rodopio infantil ao brincar no final da tarde. Por hora, me limito a limpar os espaços, a faxinar o teclado esquecido de palavras, a trocar o chaveiro de iniciais desgastadas. As memórias são muitas, como sempre, colecionadas com cuidado e enroladas em plástico bolha. Estou em casa, minha casa, e para mim não poderia ser melhor.

Enquanto desfaço as malas, recordo que devo notícias a tanta gente e confesso que não sei nem por onde começar. Temos tantas novidades e tantos planos em andamento, conto tudo aos pouquinhos para não faltar assunto nos próximos dias. Peço desculpas a quem se importou com o sumiço e agradeço a gentileza dos tantos recados. Agora que está tudo em (des)ordem outra vez, voltei para ficar. 

8.9.15

Das folhas

Cinco folhas e não passava disso há meses. Cinco folhas e nenhuma flor, nenhuma para contar história. Cinco folhas e eu tentando entender o que estava fazendo de errado, se era pouco ou muito sol. Faltava luz, literalmente. Ontem, num impulso, arranquei a planta pela raiz. Coloquei em um vazo um pouco maior, varri a terra que sobrou no chão e fui dormir. Acordei com a surpresa de um botão de amarílis me dando bom dia e fui tomar café. Entre um gole e outro, observando o verde que floresce, percebi que tem gente que parece mesmo é planta. Basta apenas mudar de lugar, basta só mostrar um pouco mais de luz e a pessoa floresce de caminhos, sonhos e ideias.  

5.9.15

Do verão

Aos poucos, tento voltar ao exercício diário de descrever as coisas bonitas que tenho encontrado ao meu redor. A estrada tem ajudado bastante na minha tarefa, é verdade, mas nem tudo são flores e os espinhos sempre exigem cuidados.

O meu distanciamento nos últimos meses foi um exercício extremamente necessário. Não houve palavra, mas houve mergulho. Não houve anunciação, mas houveram algumas mudanças e muitas decisões. Foram águas turvas, mas superei o medo e me deixei banhar pelos dias sem horas.

Foram dias bons. Dias em que me permiti sentir o calor do verão sem nenhum compromisso. De reencontros, de brindes, de cafés e de abraços. De vento no rosto, de esmalte vermelho, de longas caminhadas e de horas de viagem. De muita natureza, muitas flores, muitos lagos.

Hoje a noite, com o corpo moído de um cansaço bom de um dia bastante produtido, me senti feliz e em paz. Feliz por ter sido tão agraciada durante todos esses trinta anos de vida e por poder levar comigo memórias tão bonitas, tão verdadeiras.


29.8.15

Dos updates

Cabeça, alma, pés e coração de volta. 

Literalmente.

14.5.15

Das ausências

A casa agora está um vazio só. É engraçado como mesmo que a rotina os mantenha longe durante boa parte do dia, a ausência agora parece ser ainda maior. O barulho da saída de todos os dias, minha mãe falando alto, meu pai reclamando do atraso, todo o cuidado, toda a rotina, enfim. Se tem sido assim para mim, depois de acostumada com tanto tempo distante, me pergunto como terá sido para eles quando a gente foi para lá. E como será quando a gente voltar?

16.4.15

No filter

Abril anda aquela maré baixa de textos e de juízo. A crise bateu na porta e pediu minha identidade, cobrou resultados, comparou performances, exigiu deadlines. Mandei tudo pro buraco. E em tempos onde todos dublam ou colorem a realidade, cheguei a conclusão de que é exatamente por isso que eu não abandono esse blog, porque eu posso vir aqui escrever que viver-decidir-agir é fod.a. Aqui o filtro é o sentimento cru.

9.4.15

Da insônia

Reclamava que há tempos não conseguia tirar a voz da Marisa Monte da cabeça, até que tirou. Já era hoje quando acordou no meio da noite e, sem conseguir mais dormir, tentou me despertar para conversar um pouco. Foram algumas palavras desconexas da minha parte, mas o meu sono falou mais alto e o diálogo virou monólogo logo depois. Só sei que adormecida ou acordada, me surpreendi quando ouvi durante minutos horas depois a voz dele cantando bem baixinho, parecendo uma criança. E enquanto ele cantava, eu concordava em pensamento com cada frase.



Ainda bem que agora encontrei você..