31.3.09

Doces Verdades #4

Por que cargas d'águas você acha que tem o direito de afogar tudo aquilo que eu sinto em meu peito? Você só vai ter o respeito que quer, na realidade, no dia em que você souber respeitar a minha vontade.

[...]

Pai, já tô indo-me embora. Quero partir sem brigar pois eu já escolhi meu sapato que não vai mais me apertar.


[Raul Seixas: Sapato 36]


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28.3.09

Largos Passos

A já esperada água, tão fria, enxarcou a minha roupa e a minha alma. A pequena correnteza que inundaria a calçada não impediu que meus pequenos passos largos fossem dados. Eu aceitei todos os riscos e mesmo tendo consciência de todas as possibilidades, arrisquei.
A chuva caiu e os caracóis amadeirados se desfizeram ao se molhar, mas mesmo vendo as nuvens negras do céu, meus pequenos passos foram dados. A rotina se desfez mas os olhos, com suas falsas lágrimas de chuva, estavam cheios de sol.
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23.3.09

Segundos

Uma segunda de segundos rápidos.
E enquanto o dia se desmancha em horas e pensamentos, a mente trabalha e o coração bate cada vez mais forte [...] É aquela ansiedade boa do que estar por vir.
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20.3.09

Segundo Sol

E depois de tantas tempestades, finalmente o sol voltou a brilhar.

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17.3.09

Sem gosto

Não quis acordar e tampouco dormir. Perdeu a noite inteira olhando o mapa do desgosto sentido.

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14.3.09

Floresta Negra

Sua arma agora é negra. Uma floresta inteira de sabores. Ele não gosta de ver os meus olhos quando estão tão nebulosos. Quando existem nuvens negras, a chuva cai e sempre enxarca a rua e os nossos planos. Logo logo ele vai chegar com as mãos e os olhos repletos de doçura. E assim, com açúcar e com afeto, ele cuida de mim.
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12.3.09

Viagens

Eu definitivamente não posso deixar que o mundo gire sem mim.

Minha alma clama pela liberdade que só o meu coração pode proporcionar e a minha mente trabalha ininterruptamente os prós e contras de toda e qualquer decisão que eu possa tomar nesse momento. Quando a alma, o coração e a mente resolvem se unir em busca da realização de um sonho não existe outra alternativa a não ser segui-lo em paz. Eles querem, muito mais que antes, cair no mundo de mochila nas costas para ver o que realmente faz sentido nessa vida.

Eu não posso me submeter a viver uma prisão que não é minha, pelo menos por esse momento. Eu não quero me trancafiar em um escritório pelo resto da minha vida, ter dinheiro, casa, carro, emprego estável e somente trinta dias disponíveis para viver tudo que eu preciso... Eu não posso fazer isso comigo. Agora não é momento, não faz sentido.

O mais estranho é a forma como tudo acontece no tempo certo, como se fosse um sinal verde ...
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9.3.09

Desorient-ação

Às vezes, a bússola que me guia se desgoverna e me desorienta. As horas, os dias, a vida inteira passando por mim sem que eu me perceba.
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5.3.09

O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,

Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,

Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,

Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

[Patativa do Assaré: O poeta da roça]


Patativa do Assaré, com uma linguagem simples e poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta. Nasceu numa família de agricultores pobres, o pai morreu quando tinha oito anos de idade e a partir deste momento começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Perdeu a visão de um olho mas mesmo assim foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade e passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade. Ganhou o apelido de Patativa quando tinha vinte anos de idade, uma alusão ao pássaro de lindo canto. No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias “Inspiração Nordestina” e com muita criatividade, retratou aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Após este livro, escreveu outros que também fizeram muito sucesso. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor "honoris causa" por universidades locais. [Texto Original]

Do céu ele nos presenteia com aquilo que considera o melhor presente que poderia esperar para comemorar o seu aniversário. Parabéns poeta, feliz centenário.
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3.3.09

Imprevisão

O tempo em mim anda cada vez mais imprevisível.
Enquanto a chuva cai lá fora, me desfaço em sóis e brilho sem fim.


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