5.3.09

O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,

Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,

Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,

Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

[Patativa do Assaré: O poeta da roça]


Patativa do Assaré, com uma linguagem simples e poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta. Nasceu numa família de agricultores pobres, o pai morreu quando tinha oito anos de idade e a partir deste momento começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Perdeu a visão de um olho mas mesmo assim foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade e passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade. Ganhou o apelido de Patativa quando tinha vinte anos de idade, uma alusão ao pássaro de lindo canto. No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias “Inspiração Nordestina” e com muita criatividade, retratou aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Após este livro, escreveu outros que também fizeram muito sucesso. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor "honoris causa" por universidades locais. [Texto Original]

Do céu ele nos presenteia com aquilo que considera o melhor presente que poderia esperar para comemorar o seu aniversário. Parabéns poeta, feliz centenário.
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2 comentários:

  1. Oieeee!
    Kuriozzaaaa!
    Tem um selinho e um meme para a senhorita lá no Faxina ok?
    Beijos

    Dani (Faxina)

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  2. Que beleza esse poema, e já é seu centenário - Uau! Toda a homenagem ele merece.

    beijo*

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