28.4.09

Rei de mim

Acredito que ele é uma criança. Nunca esqueci aquele dia em que ele brincava de fazer castelos na areia. Espero que as ondas não tenham destruído os sonhos dele e que o nosso castelo sobreviva a muitas e muitas luas e ondas do mar.

Apesar de nossa relação não ser a mais perfeita do mundo, me sinto feliz ao ver ele chegar de carro e acionar aquela buzina insuportável, reclamando que alguém deveria abrir o portão para ele entrar. Eu sei que um dia irei sentir muita falta de ouvir as besteiras que ele fala e principalmente das gargalhadas que todos nós aqui em casa soltamos quando ele diz alguma coisa que nem ele mesmo consegue entender.

[...]

Feliz Aniversário Pai.

25.4.09

Pés e Patas

Decidiu que sabia voar e se atirou da varanda, do primeiro andar. Fechou os olhos e por alguns instantes esteve no céu, mas sentiu uma dor estranha e muita saudade. Abriu os olhinhos miúdos e úmidos. Achou que o céu era muito parecido com a casa que morava e que os anjos, que imaginava com asas, não eram nada estranhos..

[...]

"- Aquele passarinho ali falou que era fácil e eu quis voar também..."

[...]

Da experiência bem mal sucedida restou uma patinha quebrada e uma aflição medonha por causa da suposta hemorragia interna. Depois que o susto passou, recebeu com muita manha mil doses de carinho e o cuidado redobrado da família de pés e de patas.

Chegou a conclusão que a cama - almofada quentinha e vermelha é bem melhor que o céu.
ps: A filhote passa bem =)
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23.4.09

Pedro Páramo

"Ouvia de vez em quando o som das palavras, e notava a diferença. Porque as palavras que havia ouvido até então, e só então fiquei sabendo, não tinham nenhum som, não soavam; mas sem som, como as que se ouve durante os sonhos"

[Fragmentos do Livro Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo, p. 59]

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20.4.09

Colcha de Retalhos

A colcha de retalhos fica marcada em cada ponto que o seu corpo toca. O colorido é ofuscado pela cor da pele, dos cabelos e dos olhos que permanecem fechados. Você dorme enquanto vejo a sua respiração e me esforço ao máximo para ouvir cada batimento do seu coração sem que você desperte. É muito bom sentir a vida que há em você e sentir que dentro de nós existe tantas outras vidas, tanto sangue, tanta emoção.

Eu gosto de sentir o seu corpo quando você dorme, quando você se transforma em criança e quando nos transformamos em um.

18.4.09

Tempestades

Os olhos são uma nuvem negra que não deixam transparecer o sorriso ou a dor. O peito dilacerado continua intacto por fora. Algumas ilusões, esperança e nada mais.
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15.4.09

Fragmentos

"Lá fora, no pátio, os passos, como de gente que ronda. Ruídos calados. E aqui, aquela mulher, de pé no umbral; seu corpo impedindo a chegada do dia; deixando aparecer através de seus braços, fiapos de céu, e debaixo de seus pés réstias de luz; uma luz borrifada como se o chão debaixo dela estivesse inundado de lágrimas. E depois o soluço. E outra vez o pranto suave mas agudo, e a dor fazendo o seu corpo de contorcer.

- Mataram seu pai.
- E quem matou você minha mãe?"


[Fragmentos do Livro Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo, p. 36]


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13.4.09

Casa Cheia

A casa cheia. Amigos, filhos, cachorros e netos. Nossa casa alegre e cheia de cores vivas. Um ambiente cercado por risadas, músicas e flores contrastando com o verde capim. Familia reunida para as refeições, buscar as crianças na escola, ensinar os filhos a nadar e a andar de bicicleta.
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Gosto desse companheirismo até nos delírios que temos enquanto sonhamos acordados.


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9.4.09

Sinal Fechado

As frágeis e pequeninas pernas se esforçavam bastante para sustentar o corpo frágil enquanto os movimentos executados com os malabares eram observados pelos motoristas. A cada sinal fechado, um show era feito em busca de moedas, comida e o mínimo de atenção possível. A sua verdadeira idade jamais poderá ser revelada pelo próprio corpo, que aparenta ter uns cinco anos de idade, no máximo.

Quando o show é finalizado, tem início a corrida em busca da suada remuneração, quando esta existe. Enquanto o sinal não abria, suas pernas percorriam os espaços vagos entre um automóvel e outro quando o seu sorriso iluminou a avenida.

O sinal abriu, ele correu em busca de abrigo levando consigo algo que seu pouco dinheiro não conseguiria comprar. Não era tão grande mas seus olhos derramavam alegria ao ver a embalagem faiscante e o formato impecável. Ele exibia com orgulho o troféu mais cobiçado por todas as crianças desse mundo e que agora era dele.

Nessa páscoa ele não seria uma criança qualquer.
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7.4.09

Tempo para mim

Encontrei uma fórmula mágica para driblar o engarrafamento, o estress e o mau humor de cada dia. Substituí o barulho frenético do trânsito pelas batidas ritmadas de uma academia. Enquanto a cidade ainda está acordando, eu já estou correndo atrás de uma vida melhor, com mais qualidade e com mais tempo para mim. Depois da minha aula, são apenas alguns quarteirões, sem nenhum trânsito, até o escritório. Chego aqui feliz da vida por estar cuidando mais de mim, muito mais tranquila e disposta.
Eu deveria ter feito isso há mais tempo.
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3.4.09

Sentimentalidades

Toda essa insistência em busca da compreensão é inválida. Determinados acontecimentos existem para nos ensinar a sentir mais e refletir menos. Você jamais compreenderá o que não sente. E nós sentimos. Sentimos de forma tão intensa que provoca o não sentir dos outros.

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