31.8.11

Sol

Aqui dentro está tudo tão vivo e tão quente que eu seria capaz de iluminar esse lugar inteiro só com a minha alegria. Aquela minha vontade de voltar no tempo e resgatar tudo o que me deixava inteira foi saciada. Você me deu um instrumento e um sorriso cheio de orgulho, e eu fiquei sem palavras, porque só você é capaz de adivinhar os meus sonhos e partir em uma jornada sem fim para torná-los realidade. Esse dia cinza e frio lá de fora ficou até bonito porque eu posso preencher a tua ausência de cada dia com os tons que lembram nós dois.

26.8.11

#19

E hoje o dia está cinza e frio, o que não tem sido novidade nos últimos dias. Enquanto eu estava aproveitando esse clima maravilhoso para colocar a minha leitura em dia, escutei um barulhinho na vidraça, mas não olhei porque já sabia que era aquele pica pau que me acorda todo dia que estava voltando pra casa. Eu vi uma sombra estranha e mentalmente comecei a dar um escândalo imaginário, porque até isso eu aprendi a fazer discretamente. Eu jurava que tinha um rato gigante andando na varanda quando olhei melhor e vi que era um lindo esquilinho. Ele ainda ficou sentadinho olhando pra mim durante algum tempo, mas quando eu me movimentei para pegar a máquina, ele correu. Felizmente, ele não foi mais rápido que eu! Então estou bem contente por ter registrado essa visita inesperada. Depois vou tentar fotografar o pica pau, que é lindíssimo também!

Relembranças

Eu tenho andado em círculos e pensado muito nos próximos passos que eu preciso dar. É sempre assim quando o dia vinte e sete de agosto vem chegando. Eu me transformo em uma avalanche de ponderações e uma tempestade de lembranças.

23.8.11

#18

Você descobre que alguma coisa está errada com você quando após um dia intenso de estudos de língua inglesa o telefone toca, você entra em pânico e começa a falar “um momento” com aquele sotaque italiano da novela das oito para a pessoa do outro lado da linha. E nem italiano eu sei falar.

Dupla vida

Decidi escrever em um blog voltado especificamente para as minhas memórias desses dias em terras alheias. Não consegui encontrar espaço por aqui para dividir com vocês as minhas novas aventuras de recém-casada. O Retrato é o meu lado bonito, doce e sonhador e eu não acredito que esse seja um espaço muito bom para dividir os meus pequenos progressos na culinária e na reorganização da casa e das malas, que ultimamente a gente vive arrastando pra lá e pra cá.
Então essa é a proposta, ter um lugar para desabafar as minhas dúvidas, pedir descaradamente algumas dicas de sobrevivência e, principalmente, manter uma conversa saudável com pessoas na mesma situação caótica que eu ou simplesmente interessadas em saber como tem sido os dias por aqui. Por enquanto é só um projeto, mas se quiserem aparecer para tomar uma xícara de chá com biscoitinhos amanteigados e conversar sobre banalidades, sintam-se a vontade. É só clicar aqui!

21.8.11

#17

Há alguns dias eu tenho sentido um desejo enorme de comer Canja de Galinha. Mas, não é qualquer canja não. É a canja da minha mãe, a melhor do mundo, desculpa aí. Quando fomos ao supermercado ontem, visitei o Quebéc - setor dos frios e congelados – e me deparei com um dos maiores dilemas da minha vida: devo comprar um frango em sua totalidade, sem penas, ou devo comprar um frango esquartejado, bonitinho e praticamente perfeito para já entrar na panela?

Confesso que durante muito tempo na minha vida eu senti horror em ver um frango inteiro, apenas sem as penas e a cabeça, se é que vocês me entendem. Deve ter sido algum trauma de infância, daqueles que surgem quando você vê a sua própria mãe matar o seu frango de estimação. Incrível como você esquece que aquela bandeja de filé de peito ou de coxas faz parte de um todo que não está mais ali, naquele momento. Mas como viver é aprender e é superar os desafios, por menores que eles sejam, compramos dois frangos inteiros. Dois.

Como já era tarde da noite, deixei a tarefa para o dia seguinte. Tive uma noite horrível, cheia de pesadelos onde pessoas morriam esquartejadas ou da pior maneira possível, como nunca antes visto em nenhum filme de terror com seus quilos e quilos de ketchup. Freud explica.

Acordei e, de repente me vi em um domingo de sol e enfrentando um dos maiores desafios da minha vida. Não tinha mais como fugir. Eram só os dois frangos e eu, obviamente sob a supervisão de um adulto porque nunca se sabe, né?

Cuidar do primeiro foi mais trabalhoso. Eu ainda estava cheia de “não me toques”, soltando um “coitado do frango” a cada articulação que eu desmontava. Separei as partes nobres lembrando sempre o quanto minha mãe fazia o mesmo serviço com uma técnica e uma velocidade invejável. Nas partes mais complicadas, preciso confessar que contei com a ajuda de Baltazar. Cozinha é treino, como fala o nosso guru, e eu senti que no segundo tudo iria melhorar.

O segundo, e maior, foi realmente mais fácil. Eu quis fazer tudo sozinha porque eu preciso estar preparada para o dia em que não tiver ninguém disponível para me ajudar. Eu consegui utilizar melhor a tesoura e a faca e, incrivelmente, nem foi tão traumático como eu imaginava. Passei tanto tempo ocupada, me esforçando para tirar qualquer vestígio de gordura ou pele que no final das contas o trabalho foi até terapêutico. Quem diria! Separamos as partes nobres para congelar e as partes não tão nobres assim foram utilizadas para fazer a minha primeira canja de galinha. Ficou uma delícia!

20.8.11

Dos nós

Ontem ele conversava comigo a respeito das nossas vidas e das nossas escolhas. É engraçado como a linha da vida ata e desata os nós e, quando menos esperamos, o cenário se transforma de um jeito encantadoramente assustador. 

Nós lembramos todos os dias o quanto nós lutamos contra a desconfiança de alguns e o quanto lutamos contra nós mesmos nos nossos momentos de desânimo. Quantas vezes eu olhei para o chão pensando que isso tudo não passaria de uma loucura e uma perda de tempo. Foram anos de planejamento e alguns adiamentos. Nós nunca conseguimos as coisas da maneira mais fácil e sempre precisamos trabalhar árduamente para colher os nossos frutos.

Deu certo e nós conseguimos realizar o nosso sonho. O desafio de estar aqui tem sido enorme e não muito fácil. Nós encaramos cada etapa vencida como uma grande vitória a ser comemorada. Cada pequeno detalhe é uma grande ensinamento. E é impressionante o quanto temos aprendido sobre nós mesmos, nossos valores, nossas virtudes e, por que não, os nossos defeitos.

Estou muito feliz. Lembrei do sufoco dos dias antes da viagem, do medo e do meu choro no aeroporto quando me despedi de tantas pessoas especiais, da alegria de ver as colinas de Portugal e os Alpes lá do alto, da beleza e do acolhimento da Alemanha e seus moradores adoráveis, da euforia de estar em território francês e viajar pelo eurotunel e, finalmente, do estranhamento dos automóveis e vias malucas da Inglaterra.

Quero aproveitar os meus dias por aqui da melhor maneira possível e preciso me permitir dar um passo de cada vez. Quero finalmente aprender a falar inglês, já que o deixei de lado por tanto tempo em detrimento do francês e do alemão. Quero estudar bastante e aproveitar essa oportunidade da melhor maneira possível. Quero me cuidar mais também, afinal os vinte e seis anos estão chegando e eu preciso estar bem em todos os aspectos. Quero continuar vivendo do nosso jeito simples e feliz, agradecendo sempre à Deus por ter nos permitido tantas coisas boas.

Hoje foi um dia feliz. Nós assinamos mais um contrato e, pelos próximos seis meses, viveremos em uma casinha pequena e adorável aqui na Inglaterra.

19.8.11

#16

Eu sempre tive a sorte e o privilégio de conviver com pessoas que cozinhavam maravilhosamente bem e talvez por isso, durante muito tempo, eu tenha negligenciado bastante a minha veia culinária. Minha mãe é uma cozinheira de mão cheia, como dizem por aí, e meu irmão é um caso excepcional de talento culinário. Baltazar também é excelente e, com certeza, o tempero dele é bem melhor que o meu.

Na minha casa, a sala de estar estava sempre vazia enquanto a cozinha se tornava o cenário principal de acolhimento aos convidados. O meu papel durante todo esse tempo foi de uma simples ajudante e coadjuvante. Casa de ferreiro, espeto de pau? Não necessariamente. Eu só não tinha muita vontade de cozinhar enquanto os outros se divertiam enquanto preparavam os mais variados pratos e sobremesas maravilhosas e impecáveis.

Meu pai um dia me surpreendeu e surpreendeu alguns amigos que passavam uns dias em nossa casa. Quando soube que nós planejávamos viajar ele entrou em pânico, como qualquer pai entraria, e alegou que essa história não daria muito certo. Como é que eu iria viver longe de casa, em outro país? Eu não sabia nem cozinhar!

Ele estava um pouco enganado, mas eu não o culpo. Ele jamais havia me visto cozinhando antes e, portanto, não poderia saber que eu também tinha lá os meus dotes secretos. Precisei provar que ele estava errado e a prova ficou tão gostosa que passou a ser um dos pratos favoritos dele.

Aos poucos tenho me envolvido um pouco mais nesse universo e a cada dia aprendo uma coisinha ou outra que me deixa muito feliz, e que me deixa com muita vontade de ser tão boa quanto a minha mãe, o meu irmão e o meu Baltazar. Não posso deixar de citar as minhas avós! Comida de vó é uma das grandes maravilhas desse mundo, não é verdade?

É por isso que o Blog conta com uma categoria chamada “entre assados e cozidos”. Nela eu pretendo dividir com vocês as minhas grandes aventuras nesse mundo mágico do fogão e companhia. Também podemos trocar receitas, algumas dicas e compartilhar as novidades que provamos nesse mundo maravilhoso do “fish and chips”.

18.8.11

Dos desejos


Que eu seja sempre um convite para um sorriso sincero e um abraço, e que a minha lembrança seja tão bonita quanto você refletindo em mim sob a luz vermelha de um pôr do sol.

17.8.11

#15

Descobrimos mais um lugar lindo e que fica aqui bem próximo a nós. Costumamos ir para lá quando estamos felizes ou tristes, gostamos de nos deitar na grama molhada e olhar as nuvens no céu. Foi um jeito bonito que encontramos para meditar e entrar em contato com Deus.

E nós já improvisamos alguns piqueniques, jogamos bola e conversamos com alguns amigos que estavam a milhares e milhares de quilômetros de nós, graças à dadiva da tecnologia. Também choramos nos dias que foram tristes e nos consolamos enquanto ficávamos molhados num dia de chuva fria de verão.

Com certeza é um dos lugares dos quais nós mais sentiremos saudade.

14.8.11

Das cartas engavetadas

Lembrei bastante dos meus dias de criança ao seu lado, quando viajávamos quilômetros sozinhos e eu era a sua melhor companhia. E você colocava as suas músicas preferidas e sabia que eu iria cantando por todo o caminho. Mas, quantas vezes depois de adulta eu caminhei em silêncio ao teu lado? Quantos quilômetros viajamos juntos e calados? Hoje eu entendo os nossos silêncios e ainda mais a nossa falta de jeito para dizer coisas carinhosas um para o outro. Uma música, um sorriso, um abraço e basta.

13.8.11

#14

Nós tivemos a grande sorte de ter uma biblioteca pública aqui bem ao lado da casa onde estamos no momento e, felizmente, daqui a poucos dias iremos morar mais próximo ainda. Aqui na cidade eles têm um sistema integrado e, com o nosso cartão, nós temos acesso a todas as bibliotecas daqui e de outras cidades. Nós podemos alugar até vinte itens de cada vez, incluindo livros, áudio books, cds e dvds.

O melhor é que nós podemos acessar o acervo online, localizar o livro que a gente quer e saber se ele está disponível na biblioteca mais próxima da nossa casa, ou em qualquer outra, além de poder reservar ou renovar o que você quiser sem sair de casa. Imagine um paraíso recheado de literatura universal e best-seller inglês disponível de graça! Muito bom!

Não preciso nem dizer quem se tornou visita constante por lá. Tenho lido alguns livros bem simples, voltados para crianças e adolescentes, como aqueles escritos pela Meg Cabot. Óbvio que não é o tipo de leitura que eu consideraria ideal para a minha vida, mas é o que eu tenho feito para acelerar o meu aprendizado na língua inglesa por aqui. Tenho namorado os livros do Tolkien e não vejo a hora de poder trazê-los para casa.

9.8.11

Da grandeza

E o sol nasceu e eu precisei abrir as portas e as janelas para que ele iluminasse o nosso caminho. Só eu sei o tamanho da minha alegria e do meu orgulho quando te vi atravessando a rua deserta, entre os jardins e flores ainda adormecidos. E apesar de parecer um menino inseguro, sua sombra mostrava o tamanho da sua coragem.

5.8.11

#13

Os últimos dias têm sido bons. Aos poucos tudo tem se organizado e nós temos vencido alguns obstáculos que acreditávamos ser instransponíveis! Temos tido muita calma e muita esperança de que agora, com certeza, as coisas irão caminhar de uma maneira mais tranquila.

Baltazar tem agora um bom emprego fixo, veja que coisa maravilhosa! E em poucos dias iremos nos mudar para uma casa pequenina e graciosa, que aos poucos ganhará a nossa cor de alegria e o calor das nossas rizadas.

E a cada dia eu cresço um pouquinho mais aqui dentro, no meu espírito e na minha esperança. O verão tem sido bonito e eu tenho aprendido a gostar dos dias de sol e dos dias de chuva. O céu cinza também tem a sua beleza quando a gente consegue olhar pelo lado mais criativo.

Da luta

Nós tentamos ser melhores a cada momento. Nós escutamos e tentamos compreender o incompreensível. E nos momentos mais difíceis nós olhamos para o céu e, com a ajuda de Deus, voltamos ao combate. Nós sangramos, por dentro e por fora, mas curamos as nossas feridas em silêncio, sem ultrajar ou ofender ninguém. Nós lutamos ontem e hoje, esperando que amanhã seja um novo dia. E vai ser.

1.8.11

Antes, o verão

E durante muito tempo eu fui verão, e me alternei entre dias de chuva e sol, num ciclo viciante e já conhecido. Há pouco, pude conhecer o poder da transformação e das possibilidades. Eu conheci a primavera desde o seu início, eu presenciei o renascimento de uma natureza aparentemente morta, acabada. E tudo floriu. Agora os dias mais longos, o céu mais azul e as flores mais exuberantes sorriem para esse verão diferente, de detalhes tão emocionalmente celebrados, de pequenas descobertas. Celebro agora mais um dia de verão, e brevemente será outra primavera.