28.4.12

Das cartas engavetadas #2

Meu pai sempre teve medo de me deixar entrar sozinha no mar. Ele dizia que eu era muito afoita, e eu era mesmo. Ainda sou, preciso confessar. No fundo acho que ele sempre teve um pouco de medo. Enquanto ele me vigiava, sentado na areia da praia, talvez esse sentisse que mais cedo ou mais tarde eu atravessaria aquelas águas verdes, aquele céu de mar.


(...)


Parabéns pai.
Dê um mergulho e receba todo o meu carinho pelos braços dos nossos verdes mares.
Amo você desse meu jeito afoito e desengonçado.

24.4.12

Primeiro Ato

Depois de tantas tentativas, finalmente se convenceu de que não adianta fingir que a vida é um faz de conta de dias contados. A verdade é que a máscara pesa e que a fantasia se corrói com o tempo. Até o espelho, velha testemunha do seu narcisismo doentio, denuncia violentamente cada ato do passado. Mais cedo ou mais tarde a pele verdadeira aparece, envelhecida e marcada por uma vida de irrealidades. 




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ps: Não se enganem. A verdade - por mais que demore - sempre aparece. :)

21.4.12

Das fugas

Abri a porta da casa e a minha criatividade saiu correndo. Ela disse que não era nem doida de ficar aqui, trancada em mim.

18.4.12

Blues do elevador

Tudo que ele faz é sempre muito direito, apesar dos traços tortos.

É porque eu sou canhoto – disse ele com aquele sorriso lindo enquanto olhava a dedicatória torta e atravessada no verso da foto. Ela estava dentro do primeiro livro que ele me emprestou.

Carrega consigo o peso de um mundo inteiro que nem dele é. Culpa dos outros, sempre dos outros que não querem que ele seja pássaro. Ele sempre me achou passarinho.

Perfeccionista, crítico, trabalhador incansável e incapaz de se envolver com algo que não possa ser feito com qualidade. É pintor de casa, criador de jardim, inventor de personagem, abridor de caixa, aprendiz de professor e mestre de mim.

Ontem, com um sorriso de menino, me contou que hoje receberia um prêmio e que tiraria uma foto engraçada. Ele, que andava com aquela camisa com o símbolo da anarquia, com aquelas calças frouxas e com os brincos de pirata, hoje recebe um cheque como recompensa por ser tão bom autor/personagem desse livro estranho.

Preciso cortar o meu cabelo. – disse ao ver os fios longos refletidos no espelho.

Corta não, ele tá bonito assim. – foi o que eu disse ao ver meu pirata bonzinho voltando para o mar cor de chumbo repleto de pombos preguiçosos, e fim.

13.4.12

Mercado Negro

Amor é mercadoria sem garantia. A gente encontra no mercado negro e sai com o pacote escondido dentro do peito, sem nota fiscal.




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ps: Uma das besteiras que eu ando escrevendo por aí.

10.4.12

Ao meu Rovisky

Só eu conheço todas as verdades sobre cada figura de linguagem, cada detalhe escondido nessas crônicas dos seus dias. Ser sua primeira leitora, os primeiros olhos a quem você confia tanta intimidade, é uma das regalias que eu gosto de ter. Um dia talvez eu explique aos seus leitores todas essas suas metáforas, signos e imagens. Ou talvez seja esse o nosso último segredo, que será para sempre interpretado erroneamente pelos insaciáveis sábios críticos que existem aos montes por aí. 

3.4.12

Eumesmismos

Eu tenho feito alguns progressos nos últimos dias e para alguns pode até ser pouca coisa, mas quando eu olho para trás eu só consigo enxergar passos enormes. Das coisas mais simples - como sair de casa desacompanhada, comprar um sorvete com o meu primeiro salário, conseguir conversar com qualquer pessoa sem ter medo de não saber falar e entender quase tudo que escuto no rádio no caminho para o trabalho – às mais inacreditáveis, cada uma tem um gostinho de vitória tão singular, tão feliz. Eu vejo uma formiga no espelho, uma formiga capaz de caminhar como um gigante.

1.4.12

Melancolia

Domingos são melancólicos em qualquer lugar desse mundo.