18.4.12

Blues do elevador

Tudo que ele faz é sempre muito direito, apesar dos traços tortos.

É porque eu sou canhoto – disse ele com aquele sorriso lindo enquanto olhava a dedicatória torta e atravessada no verso da foto. Ela estava dentro do primeiro livro que ele me emprestou.

Carrega consigo o peso de um mundo inteiro que nem dele é. Culpa dos outros, sempre dos outros que não querem que ele seja pássaro. Ele sempre me achou passarinho.

Perfeccionista, crítico, trabalhador incansável e incapaz de se envolver com algo que não possa ser feito com qualidade. É pintor de casa, criador de jardim, inventor de personagem, abridor de caixa, aprendiz de professor e mestre de mim.

Ontem, com um sorriso de menino, me contou que hoje receberia um prêmio e que tiraria uma foto engraçada. Ele, que andava com aquela camisa com o símbolo da anarquia, com aquelas calças frouxas e com os brincos de pirata, hoje recebe um cheque como recompensa por ser tão bom autor/personagem desse livro estranho.

Preciso cortar o meu cabelo. – disse ao ver os fios longos refletidos no espelho.

Corta não, ele tá bonito assim. – foi o que eu disse ao ver meu pirata bonzinho voltando para o mar cor de chumbo repleto de pombos preguiçosos, e fim.

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