14.7.12

Estorvo

Vi a sua chave sobre a mesa e, por um momento, tive a sensação de que você não iria voltar. Peguei a primeira roupa que vi pela frente e saí correndo. Saí com os cabelos soltos e completamente bagunçados; com os pés descalços, apesar do frio e das poças d’água que encontraria pelo caminho; com o casaco errado, que nada me protegeria da chuva. Saí de cara limpa. Encontrei você no meio da avenida, atravessando entre os carros e caminhando apressadamente em direção a mim com uma expressão tão triste que, por um momento, me questionei se as gotas da chuva que escorriam no seu rosto não seriam na verdade lágrimas. Você recebeu a chave das minhas mãos com um sorriso, me agradeceu pelo favor, me deu um beijo rápido e pediu que eu voltasse para casa. Voltei e, enquanto caminhava vagarosamente, via o meu reflexo tão feio nas poças de água, via o reflexo de tudo que eu não queria ser: mais um estorvo – extremamente desnecessário – na sua vida. Já não sei, já não sei mais o que fazer.


4 comentários:

  1. Não sei se é impressão minha, mas acho os nossos blogs muito parecidos. Toda vez que entro aqui, me identifico muito com a maneira como você escreve. Beijos, garota colorida ;)

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  2. Imaginei você vivendo essa cena. E me bateu uma angústia enorme, até ler que você tinha inventado tudo.
    Adorei!

    beijo

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Muito obrigada pela visita e pelo comentário! :)