9.11.12

Das escolhas


Em cinco minutos de conversa, só conseguiu falar mal da cidade, do país e da [falta de] cultura dos seus habitantes. Nos outros minutos não parou de falar o quanto o seu país é o melhor do mundo, com o clima perfeito, rico em tradição e cultura dentre tantas outras vantagens. Não demorou muito para citar lista de renomados conterrâneos que fizeram diferença na história da arte mundial. E as comparações não pararam por aí.

O brilho no olhar de saudade do seu lugar de origem se confundia muitas vezes com o brilho da fúria gerada pela ignorância e pela não aceitação do outro. Uma declaração de amor e ódio que se confundiam na mesma voz embargada e alterada pela emoção. Confesso que ouvir esse monólogo apaixonado proclamado aos quatro ventos, no final de tarde de um dia de domingo em um restaurante cheio de ingleses, me deixou bastante desconfortável.

Quando se vive longe de casa é normal sentir saudade, é normal olhar a vida que se levava com outros olhos. Quantas vezes eu não escrevi aqui e ali sobre a falta que eu sinto de determinadas coisas? O que eu não entendo é a insistência em permanecer em um lugar que se escolheu estar dessa forma, sentindo tanta raiva, criticando tudo e todos, e principalmente não aceitando esse outro jeito de viver.

Eu me comovo sempre que penso nas pessoas que não tiveram escolha e que estão aqui tentando fugir de uma zona de guerra, tendo que recomeçar tudo do zero, tendo que encarar o preconceito, desemprego e tantas outras dificuldades tão mais sérias que a inaptidão de conseguir enxergar um palmo a frente do próprio nariz, o que aparentemente é o caso da pessoa expatriada em questão.

No nosso caso, apesar de não ter sido uma coisa planejada, não temos como negar que vir para a Inglaterra foi uma escolha nossa. Apesar de não concordar com muitas coisas por aqui, e de definitivamente não querer morar aqui para sempre, não tem como não reconhecer a grandeza dessa aventura. Ter que “viver”, trabalhar com algo que não tem nenhuma relação com o que somos de verdade, ser apenas um número, compreender outra língua, sangrar por dentro todos os dias, aprender um pouco sobre tudo e principalmente sobre nós mesmos faz a experiência de viver em outro país uma coisa incrível e impagável.

Eu não reclamo da cidade, eu não reclamo do emprego, eu não reclamo da comida, muito pelo contrário, eu agradeço. Eu agradeço porque eu escolhi estar aqui, eu escolhi aceitar o desafio, eu escolhi experimentar a diferença. O preço é muito alto e dói um bocado às vezes, mas é o preço da minha escolha que, independentemente do tamanho da dor, continuará sendo paga com um sorriso no rosto e com muita gratidão.


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ps: De vez em quando eu reclamo um pouco do frio porque ninguém é perfeito e não se esqueçam que eu sou bicho do calor do Sertão né! <3

6 comentários:

  1. "Eu não reclamo da cidade, eu não reclamo do emprego, eu não reclamo da comida, muito pelo contrário, eu agradeço. Eu agradeço porque eu escolhi estar aqui, eu escolhi aceitar o desafio, eu escolhi experimentar a diferença. O preço é muito alto e dói um bocado às vezes, mas é o preço da minha escolha que, independentemente do tamanho da dor, continuará sendo paga com um sorriso no rosto e com muita gratidão." - AMOR!!! Eu também, eu também!

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    1. Luana, eu tô com isso engasgado faz é tempo..
      Posso até ter medo, me arrepender de algumas decisões, questionar se o que eu tô fazendo é mesmo certo ou perda de tempo e achar que algumas coisas deveriam ter sido diferentes, mas culpar Deus e o mundo pelas escolhas que EU fiz não é comigo não.

      Beijo!
      ps: cadê criatividade pra responder o meme que você me deu? =~~

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  2. Hum... Eu não saí do meu país, saí apenas do meu estado. Aqui onde moro, Salvador, é legal. Gosto da cidade, apesar dos pesares de uma cidade grande. Tem belezas naturais incríveis. A violência é concentrada em algumas partes e dá pra ter uma vida até tranquila aqui. O clima esquenta às vezes, mas não é dos piores. Enfim, reconheço mtos pontos positivos, só o que não consigo me costumar e parar de me queixar é da atitude das pessoas daqui, isto é algo que realmente me incomoda por 'n' motivos, e que não cabe falar aq agora.

    Gostei do seu post. Ver a vida com gratidão contribui e muito pra a nossa felicidade.

    Bjs!

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  3. Algumas pessoas passam tanto tempo reclamando que esquecem que as escolhas foram elas mesmas que fizeram, e apenas elas terão a capacidade de escolher algo melhor. A insatisfação cega!

    Bom texto para refletir sobre as escolhas.

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  4. Gostei do seu texto. Muito profunda a reflexão que ele enseja.

    Estou lendo um livro que ganhei de aniversário dez anos atrás (!!!). Sim, isso mesmo, ficou 10 anos guardadinho ali na estante. Mas estou satisfeita por ter esperado tanto. É que tenho alguma aversão a "bestsellers" e a livros intitulados de "manuais de autoajuda". Mas até que aparecem uns bem interessantes. E acho que este de que falo nem se enquadra nestas categorias, embora tenha sido campeão de vendas na época. O título é "A arte da felicidade", uma entrevista com o Dalai-Lama. Acho que hoje tenho mais maturidade para assimilar seu conteúdo de um modo melhor.

    Em um dos trechos, o autor menciona a tendência que temos de nos queixar. A queixa é pretexto para puxar conversa no elevador, é pretexto para nos vitimizarmos e, consequentemente, conseguirmos a simpatia alheia, enfim, é uma forma de integração com os outros, por assim dizer.

    Fiquei observando o modo como as pessoas se comunicam e vi que isso é verdade. Se você diz que está satisfeito, está feliz, a conclusão é: ou você está querendo aparecer ou é completamente alienado. E seja qual for o caso, será sumariamente repudiado. É um tipo de penalidade social implícita. Se você é feliz, você é um E.T., então será "banido".

    Por outro lado, se você está sempre se queixando, você angaria a simpatia e o apreço de um bocado de gente. As pessoas se sentem meio que "acolhidas" quando se queixam. E isso vira uma espécie de vício. Então fazem queixas sem perceber que estão sendo, muitas vezes, incovenientes, chatas, egoístas e por aí vai. Queixar-se passa a fazer parte da vida, tal como caminhar, respirar, comer. A pessoa já nem percebe o que significa "reclamar" e o quanto isso incomoda as outras pessoas.

    Interessante também é o trecho em que o Dalai diz que se você sorri, aumenta em si mesmo a tendência a alegrar-se. E se fica o tempo todo de cara fechada, ocorre o contrário. Isso eu percebo em mim mesma e acontece mesmo.

    Então, minha amiga, no fundo essas pessoas que reclamam demais acabam sendo dignas de pena mesmo. Na verdade são insatisfeitas com a própria vida. Não é o lugar que está errado. O problema é o que está dentro. A inquietação estará onde quer que estejam. Se reclamam por estarem aí, isto é só um pretexto para a queixa. Se estivessem em seu próprio lugar, a reclamação seria outra. Talvez fosse exatamente o desejo de sair de lá e estarem no lugar onde hoje estão e reclamam.

    Ruim é ter que suportá-los. Mas nada como fazer uma boa ação de vez em quando, não é?!

    Beijos!

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  5. Já me identifiquei rss... Eu acabei de escolher morar fora (de novo) e às vezes tenho esse mesmo pensamento que vc...

    Kisu!

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Muito obrigada pela visita e pelo comentário! :)