12.1.13

Das cartas engavetadas #3


Lembro muito bem de alguns detalhes do dia 12 de janeiro de 1990. Nós estávamos voltando do centro quando minha mãe comentou alguma coisa com o meu pai enquanto estávamos parados no semáforo. Logo em seguida, ele correu como nunca para casa. Desci do carro na casa da minha vó enquanto meu pai dizia que voltava depois para me buscar.

Lembro que ainda era dia quando eu entrei na maternidade e fiquei brincando pelos corredores, ansiosa para ver de que porta esquisita você iria sair. Foi quando eu te vi pela primeira vez. Você estava quieta nos braços da nossa tia, que delicadamente tirou o paninho do seu rosto para que eu pudesse te ver. Você era branquinha e tinha o cabelo tão negro e comprido que eles já estavam presos com uma fivelinha. Você também já usava brincos, nunca esqueci.

À medida que o tempo passava, a diferença entre nós só crescia. Sempre fomos o avesso uma da outra e isso gerou muitos questionamentos para todos que nos conheciam. Era comum ouvir um “não é possível que vocês sejam irmãs”. Você não deve se lembrar, mas eu nunca me esqueci do dia em que prometi a mim mesma que nunca mais brincaria de boneca com você. Nunca achei justo o fato de você espalhar brinquedos pela casa inteira e eu ter que juntar tudo sozinha. Hoje eu me arrependo muito da promessa, que obviamente não foi cumprida a risca, mas que deixou uma marquinha de culpa no meu coração.

Era noite quando eu fui para o hospital, levando uma bolsinha com roupas limpas e comida para você e para nossa mãe. Eu não tinha autorização para entrar na sala porque era criança, mas criança sempre dá um jeito, sobe na cadeira e olha pela janela. Não entendi porque a nossa mãe chorava tanto enquanto você dormia, eu era pequena demais para entender o que era estar em coma. Era sexta feira de carnaval e nós estávamos nos preparando para viajar quando você desmaiou e foi direto para o hospital. Internação, diagnóstico, tratamento, fé, paciência e alguns anos depois você provava para o mundo que era mais forte do que a gente podia imaginar.

Você se recuperou, cresceu, criou juízo e hoje completa vinte e três anos! Você pode até parecer adulta para alguém, mas para mim vai continuar sendo a criança bagunceira insuportável e mimada de sempre. E quando a gente se encontrar e você tentar me beijar eu vou continuar fazendo aquela cara de nojo e gritar “eca”, só para não perder o costume. :)

Feliz aniversário, te amo. 

3 comentários:

  1. Me lembra a minha irmã. É uma ligação pra sempre!

    Kisu!

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  2. Ah que texto mais lindo... eu nem sei como era a minha vida sem minha irmã. ela tem o dom incrível de saber mais de mim, sobre mim, do que eu mesma.

    eu digo para todo mundo que eu até posso ter amor da vida, mas alma gêmea mesmo, só ela!

    rs

    Beijoca

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