7.2.13

The little women letters


Eu adorava ir para a escola quando era pequena. Apesar de não ser popular, não ser bonita e ter certeza absoluta que os professores só notavam a minha presença na hora da chamada, eu adorava estar lá. Com meus olhos sempre atentos eu observava e me divertia muito com as malcriações de cada dia dos mais danados da turma, com as piadas engraçadas dos palhaços e com as respostas bizarras dos desprovidos de memória. Eu voltava para casa, compartilhava os momentos mais engraçados com quem sempre estava por perto e pensava comigo mesma: eu nunca vou esquecer esse dia.

A nossa última estação naquele trem das onze seria na oitava série e, depois dali, todos teriam de seguir seus próprios caminhos para colégios e universidades diferentes. Eu deveria estar ainda no primeiro ano enquanto eu me emocionava com a Anne Frank e a leitura do seu diário. Tentei recordar alguns nomes, algumas peripécias que havia presenciado na escola e percebi que elas já não chegavam com tanta clareza e rapidez como nos dias em que eu ainda as vivia. Decidida a não esquecer as coisas boas e engraçadas, encontrei um diário velho e comecei a escrever naquele mesmo dia.

Os meus diários não eram floridos, não tinham fotos de artistas e não eram cheios de dramas de adolescência. Eu os escrevia como se fossem uma “ata” do meu dia. Descrevia detalhes, filmes que havia assistido, pessoas que havia encontrado, conversas que havia tido entre outros detalhes desimportantes do dia a dia de alguém que não tinha a mínima noção do que aconteceria nos anos seguintes. Eu sempre escrevia com a mesma caneta de tinta preta. Quando as folhas estavam todas preenchidas e eu o relia do início ao fim, parecia que aquela era a história de um livro daqueles meio chatos e sem figuras, mas que era inspirado na minha vida.

Depois que terminei a leitura de The little women letters, um livro de capa bonitinha que eu trouxe para casa sem muito entusiasmo há algumas semanas, lembrei bem o porquê de eu ter começado a escrever meus diários. Eu queria mesmo era não me esquecer de mim, de quem eu era e do que tinha acontecido até que eu chegasse até aqui. E se um dia minha tataraneta encontrasse as minhas memórias escritas nos meus diários ou até mesmo o meu blog perdido nessa internet? Talvez ela goste de me conhecer, talvez ela entenda que os tempos eram outros ou talvez morra de vergonha e queira me deletar de vez desse universo, o que é o mais provável... 


ps: Sempre sorrio quando escuto trem das onze, já que é impossível não lembrar da bagunça e da batucada que começava na sala de aula às dez e cinquenta e cinco. A escolinha de bairro já nem existe mais, mas continua sendo a mais especial e querida de todos que um dia passaram por lá. 

4 comentários:

  1. Eu tb tenho muitas lembranças boas do meu tempo de escola. Tb escrevi num diário lá pela sétima série, e trocava muitas cartas com minhas amigas. A vida muda, não é mesmo? A gente cresce... Eu olho pra trás e me pergunto: A vida era tão boa, eu só tinha que estudar, por que tinha tanta preguiça e achava tudo tão difícil? Daí eu penso se daqui a uns 20 anos, não vou lembrar dessa fase de agora e me perguntar a mesma coisa.

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  2. que post gostoso de lindo! me fez lembrar momentos nunca esquecidos da minha querida oitava c. e você sabe que até hoje escrevo meus diários. sim, fora daqui, num caderninho de folhas amarelas e de caneta preta sempre. ultimamente tem tido mais dramas do que relatos mas a bem verdade é que o objetivo é sempre o mesmo e me parece o seu: não me esquecer de mim.

    beijo

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  3. Eu sempre tive agendas. Sempre gostei muito de ler e escrever. Mas eu deixava elas bem gordas, cheias de coisinhas, papeis de restaurantes, bombons. Quando voltei ao Brasil, depois de quatro anos de Japão, eu joguei tudo fora, mas antes, dei aquela leitura rápida e vi o que eu mudei, as experiências que me fizeram tomar as atitudes daquela época, tudo se transformou e eu aflorei. É muito bom poder enxergar a si mesmo assim. Se eu tiver uma filha um dia (sim, pq menino não faria isso rs) vou estimular a criar seu próprio diário também... Vai saber como as coisas serão no futuro, né?

    Kisu!

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  4. Eu sou desses também. Tenho muita coisa escrita em alguns diários. E tenho um blog. Escrevo pra lembrar, por que minha memória é horrível pra guardar o que realmente importa. Mais quase tudo que decido escrever, é porque quase ninguém se disponibilizaria a escutar.

    E se um dia meus tataranetos tiverem acesso a isso, acho sinceramente que iram morrer de vergonha. hehe. A maior parte das pessoas não sabem desse meu lado escritor falido, e quando sabem, me perguntam umas três vezes pra ter certeza que sou eu mesmo que escrevo aquilo.

    E sobre a escola, gente, que saudades eu tenho desses melhores momentos da minha vida. Nunca fui o popular também, e olha que já até sofri bullying. heheh. Mais é a vida, até eu fazia piada de mim mesmo.

    Lindo seu texto. Por demais.
    Boa noite. "_"

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