27.3.13

De uns tempos pra cá



Chegou do trabalho cansado, mas decidido a arrumar de vez as suas malas. Enquanto separava as roupas antigas, relembrava cada ocasião importante em que as havia usado. Ponderava, relutava, decidia. Abraçava a peça maltratada, agradecia infantilmente pela companhia e tempo de uso e a jogava na sacola de roupas que teria como destino um caminho diferente do nosso.

Uma ou outra peça dava um pouco mais de trabalho, como o calção que ele insistiu em guardar apesar de já feio, desbotado, remendado e surrado. “Esse não, esse aqui eu usava para namorar com você. Se lembra daquele dia lá no Dragão?” E achava graça enquanto o colocava na mochila, junto às outras poucas peças que conseguiram escapar do lixo.

Apesar de estarmos levando uma vida extremamente minimalista e de termos acumulado pouquíssimas coisas desde que chegamos, decidimos que estava na hora de se desapegar de alguns itens que carregávamos até então com quase nenhuma utilidade para os dias daqui. Elas eram um peso morto, objeto de recordações ambulante, memórias de dias outros tão bonitos quanto esses que vivemos agora e quanto os muitos que estão porvir.

Eu, que já tinha feito minha parte no dia anterior com muita objetividade e sangue frio, me emocionei mesmo foi com a delicadeza do jeito dele se despedir das suas memórias. Pediu ao Chico César que embalasse sua despedida enquanto compartilhava as suas memórias, que se referiam a mim em quase todas as poucas peças de roupa que tinha.

De uns tempos pra cá
os móveis, a geladeira
o fogão, a enceradeira
a pia, o rodo, a pá
coisas que eu quis comprar
deu vontade de vender
e ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
o carro, a casa, o som
tv, vídeo, livros, bom...
o que em tese faz um lar
admito eu quis comprar
começo a me arrepender
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

(Escute AQUI)

3 comentários:

  1. Apenas fecho os olhos e vou jogando tudo o que não quero. Roupas, lembranças, agendas velhas, textos da faculdade, maquiagem vencida, livros amarelados, panelas, bilhetinhos da época da escola.

    Só não consigo jogar fora o medo que acordou junto comigo hoje.

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  2. Eu pratiquei esse mesmo desapego antes de mudar... mas mesmo assim, ainda tenho caixas e caixas na casa dos meus pais e irmã porque não consegui me desvecilhar, porque tudo tem uma história rs.

    Entendo perfeitamente isso.

    Kisu!

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