30.4.13

April


Não há outra palavra que melhor defina tudo o que aconteceu nesses últimos trinta dias, abril foi simplesmente incrível. Foram muitas pequenas e grandes mudanças diárias, bobas e importantes para quem vive e sente. Tem sido bom poder acompanhar o desabrochar da primavera, aproveitar os dias de chuva na casa quentinha, ter tempo, ter sol e ter companhia outra vez. Em maio eu espero continuar tendo muita coragem para arriscar e, principalmente, coragem pagar o preço que as nossas escolhas têm. 

27.4.13

Le futur proche

Julho, esse enorme ponto de interrogação nas nossas vidas.

26.4.13

Old Man's Beard


Sempre o vejo sentado no mesmo lugar e o que mais me impressiona é o olhar triste com o qual ele observa o mundo. Me pergunto o que deve ter acontecido para levá-lo a isso, se foi uma escolha própria ou uma armadilha do destino. As roupas sujas, o cabelo desgrenhado, a solidão praticamente palpável e a idade aparentemente avançada destoam com a jovialidade dos passantes e com a beleza de uma das ruas mais caras da cidade.

Enquanto todos fingiam que nada demais acontecia naquele lugar e continuam seguindo em frente com passos rápidos, alguém se incomodou. Parou no meio do caminho, colocou as mãos nos bolsos enquanto conversava consigo mesmo, respirou fundo e foi falar com o senhor que vive na mesma calçada desde o inverno passado. Perguntou se ele gostaria de comer alguma coisa e foi comprar um sanduíche no café mais próximo.

Eu, que assisti a cena enquanto seguia o fluxo rápido que atravessava o meu caminho, sorri e fiquei feliz por dois motivos. O primeiro foi saber que pelo menos alguém mais se importava com aquilo e o segundo foi a gentileza que, sem dúvida nenhuma, deve ter aquecido pelo menos um pouquinho aquele coração superficialmente congelado e aparentemente esquecido.

25.4.13

Bluebells


Demorou, demorou bastante, mas finalmente ela está entre nós. É difícil apontar a cor mais linda ou o verde mais vivo. Dou um sorriso a cada árvore e a cada jardim florido que eu encontro pelo caminho. No final das contas, é tudo incrivelmente perfeito, principalmente quando recebe o toque das flores azuis, as quais têm me deixado mais encantada ultimamente. Primavera querida, ainda bem que você chegou.

24.4.13

Um dia


Foram duas semanas tensas, apesar das pequenas alegrias cotidianas. Nós estávamos aguardando ansiosamente o resultado do processo de seleção e entrevistas aos quais ele havia se submetido ainda no início do mês. As vagas eram bem interessantes e, de alguma forma, relacionadas à formação dele. Quase tudo certo, quase tudo perfeito até que recebemos mais um não para o currículo e percebemos que, aparentemente, por aqui seremos sempre a segunda opção.

Por mais que nós permanecêssemos com os dois pés no chão e com a certeza da possibilidade de não dar certo, sempre existe uma pontinha de esperança enterrada no peito. Aproveitei que passava um filme triste na televisão e chorei toda a angústia que aquele não me proporcionou. Entre um soluço e outro, lembrei de alguns dos livramentos que recebi até então e me consolei dizendo para mim mesma que “não era para ser”.

Foi bem mais difícil juntar os cacos dessa vez, mas já estamos de pé novamente. A vida não espera por ninguém e, quando a esperança se vai, sinceramente, a sensação é de que não existe mais nada a se perder. Mentira, a sensação é de derrota e medo. Só quero olhar para trás um dia e entender o porquê de todos os nossos fracassos e, quem sabe, rir disso tudo. Um dia.


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ps: A tristeza até já passou, mas eu precisava registrar o meu desabafo.

18.4.13

Dos nuncas


E de repente eu me peguei pensando em colocar uma argola no nariz, pintar o cabelo de vermelho e fazer uma tatuagem colorida. Achei graça de mim mesma e dessa minha aparente adolescência tardia. Antes tarde do que nunca.

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ps: Um dia eu crio coragem.

17.4.13

Dos medos


“Tive um sonho horrível essa noite. Sonhei que o nosso avião estava caindo, mas foi engraçado porque eu não senti medo. Na hora que eu percebei que não teria mais jeito, eu te abracei bem forte, como pude, e fiquei repetindo ‘te amo, te amo, te amo...‘ e fiquei feliz porque você estava do meu lado.”

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ps: As declarações de amor que eu recebo diariamente acontecem assim, nos momentos mais inesperados. Os pesadelos dele quase sempre estão relacionados ao pânico de andar de avião e geralmente são bem feios, mas o de ontem, segundo ele, foi até bonito. :P

16.4.13

Red Lips


Nunca antes na história da minha vida eu havia usado batom vermelho. Sempre usei nude antes mesmo de que essa ausência de cor nos lábios fosse algo bonito e estivesse na moda. Por conta dos infinitos anos de uso de aparelho ortodôntico, aprendi a carregar bastante na maquiagem dos olhos e, obviamente, sempre optei por apagar aquilo que mais me incomodava. Os anos de aparelho acabaram, mas o costume de deixar os lábios nus não.

Eu vinha passando por uma fase down há tanto tempo que nem me lembrava mais como era olhar para o espelho e sorrir para o meu próprio reflexo. Surtei num sábado desses e influenciadíssima pela onda de red lips que anda nas ruas daqui, acabei comprando um batom vermelho horroroso e baratinho. Eu tinha certeza de que seria uma compra inútil e de que não ia usá-lo, mas queria tentar algo diferente antes de apelar para o corte de cabelo.

Usei o batom pela primeira vez em casa, enquanto estava sozinha. Enquanto me olhava no espelho tentei imaginar o processo que me levou a esse ponto de sentir tanta vergonha de mim. Parecia até que eu estava fazendo alguma coisa errada, tamanho medo e estranhamento que eu senti ao experimentar algo novo após tantos e tantos anos repetindo o mesmo hábito e o mesmo sorriso sem graça.

Aproveitei que uns noventa por cento das mulheres aqui estavam usando vermelho nas ruas e criei coragem para ultrapassar a barreira do portão de casa, já que eu seria apenas mais uma entre tantas outras caminhando por aí. Confesso que me senti tão bem com ele e com a cor que ele trouxe para a minha vida naquele dia que, desde então, já não hesito em usá-lo mais. Estou tentando aprender a gostar e a, principalmente, perder essa vergonha que eu tenho de mim.

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ps: A Lara escreveu recentemente sobre a terapia do batom vermelho e esse post me veio imediatamente na cabeça enquanto eu tentava escrever um comentário. Acabou ficando longo demais, mas eu precisava compartilhar isso com ela e também com vocês. Um beijo.

13.4.13

Dez


Nossa vida mudou completamente desde que chegamos nesse novo endereço. A casa é quente, aconchegante e cheia de janelas enormes e antigas, o que facilita a entrada de muita luz natural em todos os ambientes compartilhados desses dois andares. Além da luz, temos também muita companhia. Temos refeições regadas a novas conversas, temos aprendido e ensinado algumas coisas, temos recebido visitas e muitos convites para sair. 

É perceptível a minha evolução na comunicação após essas duas semanas vivendo em uma casa onde o idioma oficial é o inglês. Até então, apesar de todas as nossas tentativas de envolvimento e socialização com pessoas daqui e do nosso esforço para realizarmos uma total imersão cultural e idiomática, a sensação de solidão e isolamento ainda era uma realidade que nós vivíamos todos os dias quando voltávamos para casa. Decidimos arriscar.

Apesar de ser uma prática extremamente comum por aqui, confesso que eu andava muito preocupada com essa ideia dividir o teto com pessoas desconhecidas. Sinceramente, prefiro hoje a educação, a companhia e o respeito de desconhecidos que essa falsa segurança e todos os possíveis e inimagináveis terríveis problemas que o suposto ‘conhecido’ nos trás.

Aos poucos as baixas temperaturas têm ido embora e o sol vai se pondo um pouco mais tarde – mais ou menos às sete e meia, por conta do horário de verão. A primavera ainda está um pouco atrasada, mas o frio da solidão já não nos incomoda mais.

6.4.13

Dos pesadelos

Sempre compartilhávamos os nossos sonhos ou pesadelos da noite anterior enquanto preparávamos o café na cozinha ainda fria e sonolenta. Minha mãe, minha irmã e eu tínhamos essa mania até o dia em que eu deixei a nossa casa. Tenho certeza de que elas devem continuar fazendo isso todas as manhãs e eu também continuo daqui, dividindo meus sonhos e pesadelos com a pessoa que escolhi para viver ao meu lado. Quando o sonho é muito ruim, não tem jeito. Conto as horas, espero o momento certo, e às seis e meia da manhã de lá o telefone toca. Minha mãe já sabe que sou eu e meus pesadelos querendo saber se está tudo bem.

5.4.13

Dos caminhos


Tenho caminhado bastante nos últimos dias e isso tem me feito muito bem. O meu exercício contínuo de buscar sempre uma nova perspectiva da cidade mantém o meu olhar ainda muito curioso pelas velhas e novas formas e sombras que encontro a cada dia. Eu sempre fui assim, curiosa pelos detalhes mínimos e encantada pelo valor disso tudo que eu vejo. A diferença é que agora eu me sinto parte disso tudo e os meus passos decididos mostram para mim mesma que há tempos deixei de ser uma mera expectadora dessa paisagem a minha volta.

2.4.13

Colecionando Endereços


A loucura da mudança do ano passado foi uma grande lição de vida para mim e como eu sou uma boa aluna, lição dada é lição aprendida. Eu já sabia que nós teríamos que deixar o flat no final de março, então depois da virada do ano eu já comecei a procurar outro lugar para nós. Deu certo e nós estamos no teto novo desde a última sexta-feira. Foi a mudança mais bem planejada e tranquila das nossas vidas. Que os próximos três meses sejam bons.


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Update: desisto de tentar entender o Linkwithim e esse bug estranho de recomendar sempre os mesmos posts. Morro de vergonha dessa foto do meu feijão e só por isso ele aparece em todos os posts né Murphy, seu lindo. ¬¬