21.2.15

Das distâncias

Nem lembro mais quando foi a última vez que ficamos mais que vinte e quatro horas assim, separados. Tem sido bem estranho viver todos esses dias sem você na casa, mas como o motivo é nobre demais, preferi que fosse desse jeito mesmo. Amanhã você chega e meu mundo volta ao normal.

Passei horas cuidando das plantas aqui da casa, mudando jarros, plantando mudinhas, organizando mais ou menos o espaço. Faço isso pensando no jardim que quero ter, nos seus pés descalços pra lá e pra cá, na alegria das cachorras e na nossa, no dia em que a gente resolver se aquietar.

Fortaleza amanheceu hoje cinza que só, cheia de chuva, bonita demais. Chuva essa que só rega esse desejo cada vez mais impossível de conter de querer caminhar na contramão de todo mundo. Desejo de ser mais e ter cada vez menos, só o necessário. De viver a verdade e nada mais.

19.2.15

Do carnaval

O feriado de carnaval por aqui foi no calor do sertão central do Ceará. Teve chuva e arco íris ainda no início da estrada, mas a medida que nos afastávamos da zona litorânea, a realidade mudava de cor. Eram rios e riachos completamente secos, e muitas cisternas aguardando a água da chuva que ainda não chegou por lá.

Eu sou completamente apaixonada pela paisagem do sertão, sempre fui. O céu mais bonito que existe é o de lá, além de ser a morada do sorriso mais sincero e do acolhimento único que só quem conhece a dificuldade de sobreviver com quase nada pode proporcionar. Falta água, mas isso não é novidade por aqui. É difícil, mas eles sempre dão um jeito de insistir e lutar.

Teve também bola rolando no campinho de pedras, teve expedição no mato, teve observação de céu a noite, muita estrela cadente, raios e objetos não identificados clareando o horizonte sem fim. No alto do cruzeiro, olhando o sol ir embora entre as montanhas de pedra, com o chinelo cheio de espinho de mandacaru e com meu graveto na mão, me senti tendo dez anos outra vez.

8.2.15

Da coragem

Uma das coisas mais interessantes que tem acontecido por aqui é observar esse movimento de mudança buscado e vivido por algumas pessoas que conhecemos. Mesmo sendo eles de círculos distintos de conviência e amizade, é engraçado perceber o desejo comum de mudar e fazer algo diferente das escolhas de antes.

Durante muito tempo, viveu-se com a ideia ainda amarrada de que quando escolhiamos um curso ou profissão, ficaríamos ligados a isso, felizes ou não, até o fim das nossas vidas. Uma herança do passado, eu sei, mas que maravilha é saber que hoje todos temos a opção de romper com o que não funciona mais ou com o que não nos deixa bem.

No nosso caso, enquanto estivemos longe, pudemos soltar as asas e amarras com mais facilidade. Aqui, para quem ainda está dentro desse esquema formatura-trabalho-comprar-carro-casar-comprar-casa, é bem mais difícil, não se pode negar. Mas, me deixa feliz mesmo é saber que apesar disso tudo, tem tanta gente perdendo o medo e se reinventando, do jeito que dá.

6.2.15

Do presente

Que alegria é poder presenciar uma nova geração de crianças fazendo barulho na casa da minha vó. Tantas gargalhadas, tantos brinquedos, tantos sorrisos! Me vejo sempre em cada uma delas não só nas brincadeiras, mas também nos carinhos e cuidados recebidos.

Gosto muito de observar também o ritmo da casa, as paredes, o telhado, o portão e os espaços tão cuidadosamente preenchidos de plantas no quintal - meu mundo preferido de sempre. Toda a calma e simplicidade da casinha amarela me faz pensar no que realmente importa para ser feliz.

Ontem teve mais bolo, e mais parabéns, e mais barulho, e mais gente em volta da mesa. Entre uma mordida e outra, fico só olhando, sorrindo e calada, enquanto agradeço ao universo a oportunidade de viver tudo isso outra vez.

2.2.15

Dos agoras

Declarei que, no meu mundo, o ano se iniciou mesmo foi no dia primeiro de fevereiro. Quero muito, muito mesmo, que esse mês seja tudo que janeiro não foi em termos de disciplina. Não quero mais desculpas para mim mesma, não quero mais amanhã eu vejo isso. Minha lista longa de desafios pede que o começo seja agora. Foi ontem, olhando para o mar, que eu decidi finalmente apenas começar.