29.3.15

Rotaroots | Melhor Show da Minha Vida

A primeira vez que eu ouvi o som deles foi durante um festival de música que aconteceu aqui na cidade em 2003. Os metais me chamaram atenção, a animação da banda e a dos fãs também. Nessa ocasião, estava conversando com uma amiga enquanto esperava o show da banda que tocaria nos minutos seguintes. Sabia da tal da Ana Júlia e não conhecia nada além disso. Achei interessante a interação do público e a mistura brega tão sonora. Fiquei de ouvir o cd deles depois, mas acabei esquecendo.

Início de 2004 e eu já estava trocando emails com um menino muito incrível, que se tornaria meu melhor amigo, namorado e marido alguns anos depois. Passa fevereiro, março, abril e ele resolveu me levar a um show no último sábado de maio, que se tornaria o primeiro melhor show da minha vida. Estava lotado, estava quente, o local era minúsculo e ele estava de costas pro palco. Eu não lembro nada além da música alta e de nós dois. Passamos o show inteiro agarrados. Foi uma noite bonita que só.

Cada música, cada acorde do Ventura é a trilha da nossa história. Fomos em todos os shows seguintes da banda por aqui e eu adorei todos eles, com excessão do show na praia do álbum Quatro, que eu não consigo gostar até hoje. E a gente acompanhou de perto o público crescendo, o coro da platéia cada vez mais forte, os shows se tornando uma loucura, os muitos confetes no ar até o famoso hiato. Foi bom, cada show foi especial, mas nenhum show nessa vida será como foi o da noite de 2004.



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28.3.15

Das visitas

Outro dia comentei lá no passarinho twitter que de uma hora para o outra apareceram umas lagartas verdes devorando as samambaias aqui de casa. Foi uma chuva de folhas no chão, algumas pesquisas na internet e um certo pânico para tirar as comilonas de cada uma das hastes. A invasão foi controlada e nós acabamos esquecendo o ocorrido.

Não é que hoje pela manhã, ainda dormindo e descabelada, me deparei com uma borboleta verde lindíssima pousada em um dos comigo ninguém pode que ficam na entrada da casa. Fiquei contente com a visita e me surpreendi quando reparei que ela era exatamente da cor da lagarta que andou por aqui dias atrás. A natureza, como sempre, é incrível demais.

O dia segue com todos saindo para o trabalho, eu sozinha de pés descalços com as plantas, o cachorro, o gato e o papagaio. Manhã de silêncio, reflexões e muito café. Aí eu lembrei daquele clichê da vida que fala sobre cuidar apenas para que as borboletas possam chegar e fiquei pensando aqui qual é o lado jardim da vida que eu ando deixando de molhar.



24.3.15

Do trânsito

Sonhei mais uma vez que estava dirigindo em um fim de tarde tranquilo e sem trânsito. Tirando a parte impossível do 'sem trânsito' e levando em consideração que eu possuo habilitação desde 2008, esse sonho deveria ser apenas uma reprodução de algo rotineiro na minha vida. Pois é, deveria ser do verbo mas-não-é-meeeesmo, já que tenho verdadeiro  p â n i c o  de dirigir. Desculpa sociedade, desculpa Brasil.  

Acho que dirigi umas vinte vezes desde que recebi a minha permissão, geralmente na madrugada ou no domingo pela manhã. Nunca tive carro, sempre me virei de ônibus ou tive carona de amigos. Tive e tenho ainda muito medo de sair no carro do meu pai, por ser o instrumento de trabalho dele. Já pensou se eu cometo um erro ou se fazem uma besteira comigo? Fora de cogitação. Melhor contar as moedas e sair de ônibus mesmo.

Antes da nossa viagem, entre 2008 e 2011, algumas pessoas me azucrinaram bastante para que eu comprasse um carro "para ir para o trabalho" aqui na cidade. Eu? Passar no mínimo 50 minutos diários - ou mais - no engarrafamento pisando no acelerador e no freio ad aeternum e ainda pagando caro por isso? Prefiro mil vezes passar os mesmos minutos lendo o meu livro e olhando a banda passar pela janela, obrigada. 

E assim eu vivi esse tempo todo, só que agora eu comecei a sonhar que estou dirigindo. Deve ser porque vi o quanto é importante ser capaz e ter atitude, principalmente na hora de prestar socorro para alguém. Além da independência de horários para ir e vir por aqui etc. O problema é que eu entro em pânico só de olhar para o carro ainda estacionado. Taí uma meta difícil de sair do papel em 2015 por aqui, mas eu vou dar um jeito de conseguir! ;)


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ps: Para quem não percebeu ainda, olha só o blog de carinha nova para inspirar e respirar minhas abobrinhas e meus mimimis. <3

17.3.15

Das horas

As tardes se findam sempre na mesma hora, no mesmo sol do horizonte das cinco, bem antes das seis. Por aqui o tempo corre, foge, se esconde nas frestas do dia sem que eu perceba. Mal acordo e já deu dez horas, mal engulo o café e já passou da hora do almoço. Volto a encontrar conhecidos pelas esquinas, volto a me envolver em circulos, atividades. Aos poucos volto a me sentir em casa e daqui a pouco é hora de voltar para lá outra vez. 

14.3.15

Da memória

Lembro do dia que a rua onde moro foi asfaltada. Enquanto o carro de piche espalhava no chão o tapete negro da liberdade, vários olhos pequenos e curiosos observavam o meticuloso trabalho de pás e de mãos. Agora sim, seria possível andar de bicicleta à vontade, até patins começaram a ser vistos nos pés das crianças da região. Eu não sabia o significado, mas ficava atenta aos comentários que falavam sobre a prosperidade.

Eu deveria ter uns três ou quatro anos nesse dia e tenho ainda algumas outras lembranças bem vivas dessa mesma época. Lembro ainda das folhas secas e seus redemoinhos no final da tarde, dos muros e portões todos baixos, do pé de jambo verde e majestoso, do sol batendo na varanda no final da tarde e da noite iluminando as pedras do calçamento. Lembro ainda dos telhados, dos jardins, da fachadas e de alguns velhos rostos vizinhos que já não estão mais por aqui.

Fortaleza muda muito, o tempo todo, e tem a mania feia de tentar esconder o passado. Na nossa rua não foi diferente e a paisagem se transfoma cada vez mais, assim como quase tudo nessa grande cidade. Mas pelo menos aqui no bairro ainda sobrevivem as mercearias de cada esquina, o tambor de feijão vendido a granel, as velhinhas conversando na calçada, o bom dia dirigido aos vizinhos conhecidos, o resquício mínimo de pequeno vilarejo afastado do caos urbano.

Na minha memória, ainda vive a rua larga de paralelepípedos encantados assim como outros detalhes das pontes, praças, prédios, fachadas, parques e viadutos que surgem e desaparecem como miragem nessa cidade. Esse post nasceu ao ver tantas fotos bonitas publicadas no instagram de pessoas e de projetos que buscam resgatar e registrar um pouco da memória da nossa terra, antes que tudo e todos sejam engolidos pela areia movediça da transformação. 


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ps: Dá só uma olhada no @Fortaleza365, um projeto bonito demais da Maísa Vasconcelos, que eu cresci vendo apresentar o Na Boca do Povo e sou fã demais até hoje. Na apresentação do perfil, ela descreve o projeto como 'uma imagem todo dia na cidade que se transfigura. Do celular, a Fortaleza que quer ser e, num átimo, já não é. Um olhar, alguma memória.'

Só digo uma coisa: tem que clicar e ler as legendas. <3

13.3.15

Do pé

Tenho a mania de colocar sempre o pé direito no chão ao levantar, mas também nunca reparei se acordar com o pé esquerdo trouxe, efetivamente, algum problema ao meu dia. Pé direito ou esquerdo não garantem que as próximas horas sejam perfeitas. Tem trânsito, tem ônibus lotado, tem estresse, tem pneu furado, tem cocô de cachorro estrategicamente posicionado na calçada, entre outras pequenas desagradáveis surpresas do dia a dia.

Basta uma coisinha fora do planejado acontecer e lá vem o injustiçado pé esquerdo levar a culpa de tudo de ruim que ocorreu pelo caminho. Nessa hora, ninguém se lembra que foi o pé direito que primeiro tocou o chão. Acredito que o pé não interfira tanto assim no acontecimento das coisas, a não ser que você escorregue, machuque ou, infelizmente, quebre o pé ou algum dedinho. Nesse caso sim, o pé – direito ou esquerdo – vira o motivo de todo o cuidado e atenção.

9.3.15

Das sementes

Em Berlim, a primavera começa a dar as caras, mas por aqui também temos sido surpreendidos por novos brotos e novas folhas verdes em busca do sol. É oficial, virei a louca das sementes aqui da casa. Por mim, tudo bem já que o objetivo é deixar o nosso mini jardim florido.

Se você ainda lembra daquela experiência maravilhosa do feijão no algodão, pode ter certeza que é sim muito mais emocionante ver uma semente germinar na terra. Acompanhar o processo de crescimento das primeiras folhas e da plantinha em si, então nem se fala. Todo dia é uma surpresa!

Mas nem tudo são flores por aqui também. Fui extremamente mal sucedida na poda de um cacto, que apesar dos meus cuidados não resistiu e apodreceu. Mas é assim mesmo na nossa vida jardim, enquanto uns morrem e viram adubo, nascem outros para florescer.

7.3.15

Dos dramas

É engraçado pensar sobre as emoções que uma música ou uma voz adquire com as experiências que a gente vai coletando pelo caminho. O que um dia era boa lembrança e sorriso, vira memória ruim e desespero para alcançar o botão do volume e mudar a canção. O artista não tem nada a ver com a história, mas, infelizmente, a trilha sonora acaba marcando para sempre mesmo e ponto final.

Serei odiada pelo resto dos meus dias, mas confesso que ouvir Elis Regina hoje me irrita profundamente. Eu amava as músicas que ela canta, assim como tantas outras do Chico e companhia, que me embalaram por horas durante tanto tempo. Eu sei da importância desses artistas para a nossa cultura, mas teve uma experiência ruim no caminho e acabou-se a boa memória.

A minha implicância com a Elis se dá justamente pelo drama envolvido em quase tudo que ela canta e pelo fato da personificação da memória ruim ser tão dramática quanto a interpretação de atrás da porta. Se tem uma coisa que eu me recuso a aturar nesse mundo, essa coisa é drama, principalmente quando ele é feito sem motivo ou por futilidade. Não dá. Desculpa Elis, desculpa Brasil.

Não que o motivo da música seja fútil. Ali, a gente se joga e se acaba mesmo, com toda a razão. Agora, fazer cada minuto da sua vida um drama, querer que o mundo gire em torno de si, dar escândalo, inventar mentiras, se fazer de vítima e ainda envolver terceiros em confusão sem nenhuma necessidade? Desculpa aí, mas eu não sou obrigada a aturar isso não.

Espero que um dia eu esqueça a experiência ruim ou atribua uma nova boa lembrança para a voz da Elis na minha memória. Que eu também ria do que passou, que eu enxergue tudo com mais clareza e leveza. Que eu releve o absurdo e supere de uma vez por todas. Quem sabe, um dia eu até esqueça. Quem sabe, um dia, quem sabe...