14.3.15

Da memória

Lembro do dia que a rua onde moro foi asfaltada. Enquanto o carro de piche espalhava no chão o tapete negro da liberdade, vários olhos pequenos e curiosos observavam o meticuloso trabalho de pás e de mãos. Agora sim, seria possível andar de bicicleta à vontade, até patins começaram a ser vistos nos pés das crianças da região. Eu não sabia o significado, mas ficava atenta aos comentários que falavam sobre a prosperidade.

Eu deveria ter uns três ou quatro anos nesse dia e tenho ainda algumas outras lembranças bem vivas dessa mesma época. Lembro ainda das folhas secas e seus redemoinhos no final da tarde, dos muros e portões todos baixos, do pé de jambo verde e majestoso, do sol batendo na varanda no final da tarde e da noite iluminando as pedras do calçamento. Lembro ainda dos telhados, dos jardins, da fachadas e de alguns velhos rostos vizinhos que já não estão mais por aqui.

Fortaleza muda muito, o tempo todo, e tem a mania feia de tentar esconder o passado. Na nossa rua não foi diferente e a paisagem se transfoma cada vez mais, assim como quase tudo nessa grande cidade. Mas pelo menos aqui no bairro ainda sobrevivem as mercearias de cada esquina, o tambor de feijão vendido a granel, as velhinhas conversando na calçada, o bom dia dirigido aos vizinhos conhecidos, o resquício mínimo de pequeno vilarejo afastado do caos urbano.

Na minha memória, ainda vive a rua larga de paralelepípedos encantados assim como outros detalhes das pontes, praças, prédios, fachadas, parques e viadutos que surgem e desaparecem como miragem nessa cidade. Esse post nasceu ao ver tantas fotos bonitas publicadas no instagram de pessoas e de projetos que buscam resgatar e registrar um pouco da memória da nossa terra, antes que tudo e todos sejam engolidos pela areia movediça da transformação. 


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ps: Dá só uma olhada no @Fortaleza365, um projeto bonito demais da Maísa Vasconcelos, que eu cresci vendo apresentar o Na Boca do Povo e sou fã demais até hoje. Na apresentação do perfil, ela descreve o projeto como 'uma imagem todo dia na cidade que se transfigura. Do celular, a Fortaleza que quer ser e, num átimo, já não é. Um olhar, alguma memória.'

Só digo uma coisa: tem que clicar e ler as legendas. <3

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