5.4.16

Das questões

A mesa onde passo horas e horas do meu dia atualmente fica bem próxima à rua. O que existe de verde e de claridade, existe em dobro de barulho. No início era difícil buscar concentração com tantos estímulos visuais e sonoros, mas agora, já adaptada à rotina dos passantes, encontro nas brechas do cotidiano alheio memórias incríveis que me levam longe nos pensamentos.

Existe uma escola no quarteirão seguinte ao onde fica a a minha casa e isso significa que, em horários bem específicos do dia, grupos de estudantes alegres e barulhentos passam pulando, cantando e brincando pela mesma calçada onde um dia eu tanto brinquei.

Às 6h45 e às 11h o público miudinho das creches desfilam por aqui, sempre com muito choro, muita birra e muitos porquês. Quando eles percebem os chachorros tomando banho de sol na garagem então, aí é uma festa de gritos e latidos. Nessa hora a concentração vai embora e o melhor mesmo é ir tomar café.

Vez ou outra consigo acompanhar os diálogos que acontecem em frente ao portão e me pergunto o que eu faria na situação em que os adultos responsáveis por essas crianças se encontram quando se deparam com as perguntas absurdas que só a sinceridade infantil permite fazer.

Outro dia uma menina reclamava para a mãe que os amigas riram dela por conta do celular “de pobre”. Fiquei tão chateada com isso, lembrei também que às vezes as crianças conseguem ferir sentimentos como ninguém mais. Uma outra respondia com revolta a acusação impiedosa das vozes que gritavam inssistentemente um “tá namoran-dô” tão bem ensaiado que não dava para não rir da situação.. Não sei, gente. Não tenho psicológico para criança não.

À tarde é a vez dos mais crescidos e dos adolescentes passarem por aqui. Esse momento exige um outra pausa para um café, porque não dou conta da energia que esse povo tem em plena uma hora da tarde nesse sol de cozinhar os miolos. Eles cantam, brigam, falam bordões da internet, é uma loucura! Mas, todas as tardes é impossível não lembrar da festa que eu fazia com minhas amigas no caminho para o colégio também. Nessa hora, sinto saudades.

Às 17h começam a voltar para casa, além dos estudantes, as pessoas que deixam os seus postos de trabalho. Quase sempre tem um pôr do sol incrível no céu, idosos sentados na calçada, um vizinho ouvindo música alta, pessoas cantarolando trechichos desencontrados, senhores assoviando verdadeiras sinfonias, passarinhos em revoada, tapioca quentinha sendo vendida, cachorros latindo.. É um momento tão caótico e tão mágico que não tem como não achar esse cotidiano um absurdo de bonito.



---
ps: A inspiração para esse post foi um tweet da Juliana, do Fina Flor, que falava sobre mais uma das perguntinhas engraçadas que uma professora pode encontrar pela frente na sala de aula.. Se fosse eu nessas situações delicadas ou embaraçosas, mesmo pensando bastante a respeito, nunca saberia o que responder! :P 

3.4.16

Dos ensaios

Foram muitas as tentativas, muitos os ensaios para voltar aqui. As voltas, elas foram tantas quanto a de um rodopio infantil ao brincar no final da tarde. Por hora, me limito a limpar os espaços, a faxinar o teclado esquecido de palavras, a trocar o chaveiro de iniciais desgastadas. As memórias são muitas, como sempre, colecionadas com cuidado e enroladas em plástico bolha. Estou em casa, minha casa, e para mim não poderia ser melhor.

Enquanto desfaço as malas, recordo que devo notícias a tanta gente e confesso que não sei nem por onde começar. Temos tantas novidades e tantos planos em andamento, conto tudo aos pouquinhos para não faltar assunto nos próximos dias. Peço desculpas a quem se importou com o sumiço e agradeço a gentileza dos tantos recados. Agora que está tudo em (des)ordem outra vez, voltei para ficar.