9.7.17

Dos Julhos

Há cinco anos, durante uma viagem de férias, decidimos deixar a nossa já estável rotina e voltar para Berlim. Em um mês organizamos mudança, demissão dos nossos empregos, fizemos as malas e caímos na estrada. Lembro de ter chorado um pouco ao avistar os muros coloridos contrastando com o céu cor de chumbo da Inglaterra pela última vez, mas ele não estava feliz e nada nos prendia realmente ao lugar.

Há quatro anos eu já tinha uma vida um pouco mais organizada na Alemanha, um emprego maluco em uma startup em ascensão, uma equipe de trabalho que se transformou em amig@s querid@s e meus lugares preferidos na cidade. Lembro de ir caminhando ao trabalho, atravessando parques, ouvindo música e prestando atenção em cada detalhe.

Há três anos, nos mudávamos para um apartamento com quase nenhuma mobília e sem nenhuma cortina, mas com tanta luz que a casa se preenchia de cor durante todo o dia. Lembro-me muito bem da noite do fatídico 7x1, mal conseguimos dormir por conta da cantoria que ecoava pelas ruas vazias de tráfego e repletas de grupos que esbanjavam alegria. Da janela, viamos toda a cidade festejando e o céu colorido com os fogos de artifício.

Há dois anos, desembarcávamos em Berlim novamente após curta temporada no Brasil. Dessa vez, voltávamos para desfazer os nós, os contratos, as contas no banco e demais vínculos que nos ligavam ao lugar. Foram os dias mais bonitos, o verão mais quente, os passeios mais alegres que já fiz. Sinto até hoje o aperto no peito dos abraços e do medo que senti ao deixar o meu horizonte de todos os dias rumo ao que tinha se tornado desconhecido.

Há um ano, já em Fortaleza e ainda completamente bagunçada após o retorno de uma curta temporada de vivência em João Pessoa, recebia o convite para um trabalho muito legal e passava novamente no vestibular. Naquele julho eu sentia que, aos poucos, conseguiria sair da inércia e do limbo pós-retorno e voltaria a me envolver com a cidade que escolhemos para viver.

Nesse julho, completo um ano no trabalho. Descobri novos interesses, conheci novas pessoas, tenho uma rotina muito maluca e sinto que tenho dado pequenos passos todos os dias. Estou prestes a iniciar uma nova graduação, que foi um grande conquista e também uma grata surpresa nesse processo de reconstrução e de religamento de laços.

Quem diria que após tantas idas e vindas, tantas mudanças, tantos medos e receios de tomar decisões gigantescas, estaríamos realizando exatamente aquilo que colocamos no papel? Olhando para trás, percebemos que quatro anos não são nada e que a vida passa enquanto perdemos tempo e adiamos escolhas. Nesse exato momento me sinto feliz por escolher não ter medo de arriscar.