22.10.20

Das sementes


Aqui em casa nós crescemos ouvindo minha mãe dizer que um dia iria sair caminhando e plantando árvores, de preferência frutíferas, para ajudar a amenizar a fome que existe nas áreas mais carentes da sua cidade natal, que fica no sertão central do Ceará. Isso foi muito antes da circulação daquele texto que falava sobre a prefeitura de uma cidade na Tailândia incentivar os seus moradores a plantar as sementes das frutas que eram consumidas. Por conta dessa ideia dela, desde cedo a gente aprendeu a separar e a plantar as sementes aqui mesmo na cidade, com o objetivo de levar as mudas já no ponto de transplante para o sertão. 


Por conta da idade já um pouco avançada e do perigo que andar na estrada oferece, ela arrumou uma maneira alternativa de fazer esse projeto acontecer. Na frente da casa que era do meu avô existe um terreno enorme que faz parte de uma fazenda de um senhor muito importante da região. Um dia, a minha mãe foi lá pedir permissão ao dono da fazenda para plantar algumas frutíferas no terreno e explicou que o objetivo era apenas ajudar a natureza e a comunidade do entorno de alguma forma. Ele ficou de pensar e dias depois mandou um funcionário ir deixar a resposta. 


Desde o dia que ela recebeu a autorização, faz parte da bagagem levar uma mudinha sempre que alguém viaja para o interior. Meu pai também segue empenhado no projeto e, além do que existe no quintal da nossa casa, já tem abacate, mamão, siriguela, cajú, jambo, manga, côco e acerola crescendo no sertão. Além das frutas, temos também algumas flores como ipê, flamboyant e jasmim, e sempre que tem mamão madurinho, dorme no pé e amanhece no prato ou na barriga de alguém.


Agora a pouco, recebi uma foto que mostrava o meu pai de longe aguando as plantas no terreno nessa luz bonita do fim de tarde. Só quem conhece sabe a beleza e o encanto que esse lugar tem. Quem já foi ao nosso sertão central sabe que a paisagem nessa época do ano é um contraste de céu azul com terra áspera, seca e muito quente. Me enche de orgulho saber que meus pais se preocupam  e estão trabalhando de alguma forma para deixar boas sementes crescendo por aí alimentando quem quer que seja, bicho ou gente, de fruta, de esperança e de natureza.


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